Com informações da Superinteressante e BBC News Brasil
Apesar de sua vastidão territorial e necessidade logística, o Brasil ainda patina quando o assunto é transporte ferroviário. Hoje, os trens de passageiros representam apenas cerca de 3% da demanda total do país — número que inclui inclusive os sistemas de metrô. Para entender por que o Brasil possui uma malha ferroviária tão precária, é necessário revisitar as decisões políticas e econômicas que moldaram a infraestrutura nacional desde o século XIX.
Ascensão com o café, queda com a crise
O início da era ferroviária no Brasil está intrinsecamente ligado ao ciclo do café. Em 1854, a inauguração da Estrada de Ferro Mauá, entre o Vale do Paraíba e o porto de Magé (RJ), marcava o nascimento dos trilhos nacionais — um esforço logístico para facilitar a exportação da commodity que, à época, representava quase metade das exportações brasileiras.
À medida que o café prosperava, as ferrovias se expandiam. Nos anos 1920, o país chegou a contar com cerca de 30 mil quilômetros de trilhos. No entanto, a crise de 1929, que derrubou o preço do café e reduziu drasticamente as exportações, afetou profundamente a viabilidade econômica das ferrovias, operadas sob regime de concessão. Sem carga, muitas empresas faliram, iniciando um ciclo de declínio.
Rodoviarismo e abandono estatal
A situação se agravou nos anos 1950, com o governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961) e seu famoso Plano de Metas, cujo lema era “50 anos em 5”. O foco passou a ser a industrialização e a expansão da malha rodoviária, considerada mais rápida e barata de construir. O forte lobby da nascente indústria automobilística, incentivada por acordos com os Estados Unidos durante a Guerra Fria, deu o empurrão final. Durante o governo JK, a malha rodoviária pavimentada saltou de 2,9 mil km para 9,5 mil km.
Em 1957, foi criada a Rede Ferroviária Federal S/A (RFFSA), com o objetivo de administrar e modernizar as estradas de ferro estatizadas. Mas o investimento em infraestrutura ferroviária perdeu espaço no orçamento, e a falta de cláusulas contratuais de manutenção nas antigas concessões agravou a deterioração da malha existente.
Trens de carga resistem, passageiros desaparecem
Com a reconfiguração do sistema para focar no transporte de cargas, o Brasil viu desaparecer praticamente todos os seus trens de passageiros — com exceção de alguns trechos turísticos ou urbanos, como os metrôs. Em 2012, o transporte ferroviário de passageiros já era irrelevante no contexto nacional.
Entretanto, especialistas apontam vantagens importantes do modal ferroviário: maior capacidade de transporte, menor emissão de poluentes (trens emitem dez vezes menos CO₂ por tonelada que caminhões) e durabilidade (vida útil de trens gira em torno de 30 anos, enquanto caminhões duram cerca de 10 anos).
Futuro ainda incerto
Embora haja planos para revitalizar o transporte ferroviário no país, especialmente com foco em carga e exportação, a retomada plena das ferrovias como alternativa sustentável para passageiros ainda enfrenta desafios estruturais, políticos e econômicos. Enquanto isso, o país continua dependente das rodovias — muitas delas em estado precário — e do transporte rodoviário de cargas e pessoas.
Nesse cenário, uma nova possibilidade de avanço pode vir de fora. A ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, afirmou nesta sexta-feira (9) que a China demonstrou forte interesse em investir na malha ferroviária brasileira. Segundo ela, o próprio presidente chinês, Xi Jinping, expressou a intenção de ampliar a infraestrutura logística no país durante uma reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 2024, no Brasil.
“Já estamos tratando disso com a China desde o primeiro mês do governo Lula. Na primeira reunião com o presidente Xi Jinping, percebi que eles estão muito interessados na questão das ferrovias. Eles querem rasgar o Brasil com ferrovias. Não existe dinheiro público suficiente para fazer isso, é muito caro”, declarou Tebet em entrevista à revista Carta Capital.
Apesar do interesse internacional e das promessas de modernização, o futuro das ferrovias brasileiras continua indefinido, dependente de decisões estratégicas, investimentos consistentes e vontade política — algo historicamente escasso no setor.
Fontes:
Superinteressante – “Por que o transporte ferroviário é tão precário no Brasil?”
BBC News Brasil – “4 momentos que contam a história da destruição das ferrovias no Brasil”, por Camilla Veras Mota
Entrevistas com especialistas: Fabiano Pompermayer (Ipea), Eduardo Romero de Oliveira (Unesp), Hostílio Xavier Ratton Neto (Coppe/UFRJ), Welber Luiz dos Santos (ABPF).



