O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) adotou nesta segunda-feira (30) um tom mais brando ao comentar a política de juros, mesmo após o Banco Central elevar a Selic para 15% ao ano — o maior patamar desde 2006. Em vez de críticas, Lula elogiou o atual presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, indicado por seu governo, e defendeu que o debate público se concentre nos chamados juros reais — ou seja, a diferença entre a taxa de juros nominal e a inflação.
As declarações foram feitas durante o lançamento do Plano Safra da Agricultura Familiar, que manteve taxas de 2% a 3% ao ano para financiamentos voltados à produção de alimentos da cesta básica e produtos orgânicos. Lula usou esses números como exemplo para defender que o governo precisa comunicar melhor os efeitos reais dos juros para a população. “Se você pegar um juro de 14% e descontar a inflação, ele vai ser 9%. As pessoas precisam entender isso”, afirmou.
Lula também pediu que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e outros membros do governo adotem esse discurso mais técnico e pedagógico sobre a política monetária. Sem criticar diretamente a alta da Selic, o presidente afirmou confiar que “Galípolo é um presidente muito sério e as coisas vão ser corrigidas com o tempo” e disse que prefere “mostrar o que vem pela frente” em vez de “ficar chorando sobre o que herdou”.
O aumento da taxa Selic impacta diretamente a vida do brasileiro porque ela serve como referência para os juros cobrados em empréstimos, financiamentos e cartões de crédito. Quando a Selic sobe, os bancos tendem a repassar esse custo ao consumidor, tornando o crédito mais caro. Isso desestimula o consumo e o investimento, o que ajuda a conter a inflação, mas também pode frear a atividade econômica. Na prática, significa que parcelas de financiamentos ficam mais altas, o acesso ao crédito fica mais difícil, e até compras comuns no carnê ou no cartão podem pesar mais no bolso das famílias.
A fala marca uma mudança clara de tom em relação aos últimos anos. Em 2024, com a Selic em 13,75%, Lula atacou duramente o então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, escolhido por Jair Bolsonaro. Chegou a chamar a taxa de juros de “irracional” e acusou Campos de ter “comportamento anti-Brasil”, cobrando dos senadores uma reavaliação de sua atuação à frente da instituição.
Agora, com a taxa ainda mais elevada e sob comando de um nome alinhado ao Planalto, Lula evita confrontos e adota um discurso mais técnico e conciliador. A mudança de postura chama atenção por não decorrer de alterações na política de juros em si, mas da troca no comando do BC. O contraste ajuda a explicar como a percepção política pode pesar tanto quanto os números na condução e na crítica da política econômica.
Com o anúncio da segunda etapa do Plano Safra nesta terça-feira (1º), voltada ao setor empresarial, o governo deve seguir tentando equilibrar sua estratégia de crédito subsidiado com um discurso menos hostil ao Banco Central — ainda que a Selic continue pressionando o custo do dinheiro no país.



