A circulação de um ônibus da Prefeitura de São Borja sem para-brisa em meio à geada terça-feira (1º) gerou indignação nas redes sociais e reacendeu o debate sobre as condições da frota municipal de transporte.
A repercussão levou à revelação de um problema ainda mais grave:
Um servidor municipal procurou a reportagem e denunciou um cenário de precariedade e ameaças dentro do setor. Segundo ele, o caso do para-brisa não é pontual — o ônibus em questão circula há muito tempo em condições extremamente perigosas.
“O veículo anda muitas vezes até sem freio, sem sinalização, em péssimas condições. Isso é frequente. E se o motorista se recusa a trabalhar nessas condições, é ameaçado com corte salarial”, relatou o funcionário, que pediu anonimato por medo de retaliações.
De acordo com a denúncia, a principal ferramenta de pressão seria a gratificação por “dedicação”, paga como complemento ao salário base.
“Os funcionários acabam se submetendo a essas condições por causa da gratificação chamada dedicação. Quando alguém se recusa a realizar o trabalho ou não aceita as condições precárias, essa gratificação é cortada, e o servidor passa a ser rotulado como alguém que está se negando a trabalhar”, relatou o servidor.
Atualmente, o salário de um motorista concursado da Prefeitura de São Borja está abaixo do salário mínimo nacional, o que torna a gratificação ainda mais essencial para a sobrevivência dos profissionais. “O salário é muito baixo e sem a dedicação que é um complemento não se consegue nem pagar as contas”, informou.
A denúncia revela um ambiente de trabalho marcado pela precariedade e pela intimidação. “Quando o motorista se recusa a dirigir, eles ameaçam cortar o salário. A partir disso, não há muito o que fazer”, afirmou o servidor, que reforçou o pedido de anonimato, pois segundo ele “a administração não perdoa e sempre acha um jeito de punir”.
A situação gerou reação política. O vereador Eduardo Rocha (PSDB) se manifestou em suas redes sociais classificando o caso como “inaceitável” e cobrando providências da administração municipal.
“Não é um caso isolado. É reflexo do descaso com a frota e com quem faz a cidade funcionar todos os dias. Como pode a Prefeitura exigir tanto dos seus servidores e, ao mesmo tempo, submetê-los a condições como essa? ”, escreveu.
O parlamentar afirmou que sua bancada está solicitando informações formais sobre o estado da frota municipal, os planos de manutenção e as medidas que serão adotadas para garantir segurança aos trabalhadores. Ele também pediu a retirada imediata do ônibus de circulação.
Além das denúncias trabalhistas, o caso pode configurar infrações gravíssimas ao Código de Trânsito Brasileiro.
Circular com veículo sem para-brisa ou sem condições mínimas de segurança, como freios e sinalização, é passível de autuação, multa e apreensão.
Moradores relatam que o veículo circula há anos sem manutenção adequada e sem nunca ter sido retirado das ruas ou multado — o que levanta suspeitas sobre a ausência de fiscalização.
Até o momento, a Prefeitura de São Borja não se pronunciou oficialmente sobre a situação.



