O anúncio do ex-presidente Donald Trump sobre a imposição de uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros importados pelos Estados Unidos acendeu um alerta em setores estratégicos da economia do Rio Grande do Sul. O aumento da alíquota, que antes estava em 10%, foi comunicado nesta quarta-feira (9) e pode afetar diretamente exportações agrícolas e industriais gaúchas, dois pilares da economia do Estado.
Segundo Trump, a medida é uma resposta à “relação comercial injusta” com o Brasil e também tem caráter de retaliação política, citando investigações em curso contra Jair Bolsonaro.
Estados Unidos: segundo maior destino de exportações gaúchas
De acordo com dados da Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão do RS, os Estados Unidos foram o terceiro principal destino das exportações do Estado em 2024, com 8,4% de participação — atrás apenas da China (26,2%) e da União Europeia (12%).
Os principais produtos exportados do Rio Grande do Sul para o mercado norte-americano incluem farelo de soja, fumo, carne de frango, cereais, celulose, couro e máquinas industriais, muitos deles com alto valor agregado e sensíveis a aumentos tarifários.
Para a Federação da Agricultura do Estado (Farsul), o impacto sobre o agronegócio pode ser expressivo. “Seremos muito impactados, principalmente com a proteína animal. É nosso segundo maior comprador, atrás apenas da China”, afirmou o economista-chefe da entidade, Antonio da Luz.
Ainda segundo dados da Farsul, os EUA representam cerca de 10% das exportações agrícolas do RS. Em 2024, os embarques gaúchos de produtos agropecuários aos Estados Unidos totalizaram US$ 1,8 bilhão.
Indústria também em alerta
A Federação das Indústrias do Estado (Fiergs) também reagiu com preocupação. Em nota, destacou que os EUA foram, em 2024, o segundo principal destino da indústria gaúcha, com destaque para produtos químicos, máquinas, alimentos processados, calçados e couro.
“Medidas dessa natureza afetam diretamente a previsibilidade e a estabilidade das relações comerciais, comprometendo a competitividade da indústria brasileira”, declarou a entidade. A Fiergs também afirmou esperar uma revisão antes da entrada em vigor da medida, prevista para 1º de agosto.
Impactos econômicos podem ser severos
Segundo a Nota Técnica nº 105 do governo gaúcho, as exportações totais do RS já haviam recuado 1,9% em 2024, somando US$ 21,9 bilhões, com queda expressiva no envio de produtos como farelo de soja (-20,6%), cereais (-25,6%), carne de frango (-12,7%) e óleo de soja (-35,9%).
A nova tarifa pode ampliar essa tendência de retração. Se o mercado norte-americano — hoje essencial para o escoamento de itens industriais e agropecuários gaúchos — se tornar menos acessível, empresas podem enfrentar perdas bilionárias, redução da produção e demissões.
Entre os setores mais ameaçados estão:
- Soja e derivados, com alto volume exportado para os EUA;
- Fumo, onde o RS é líder nacional;
- Carne de frango, que já sofreu redução nas vendas em 2024;
- Calçadistas e couro, setores tradicionalmente dependentes do mercado norte-americano.
Reações políticas
O presidente Lula classificou a medida como um ataque à soberania brasileira e convocou uma reunião de emergência para avaliar uma resposta diplomática. Trump, por sua vez, comunicou a decisão por meio de uma carta publicada na rede Truth Social, endereçada ao governo brasileiro.
Em meio ao clima de tensão, entidades como a Federasul consideraram o gesto como um reflexo da “belicosidade entre as nações” e alertaram para o risco de retaliações e agravamento da crise comercial.
Futuro incerto
Com a tarifa prestes a entrar em vigor, o Rio Grande do Sul observa um cenário de insegurança jurídica, possível retração nas exportações e risco de prejuízos bilionários. A depender da condução diplomática e da possibilidade de reversão da medida, o Estado pode enfrentar um dos maiores desafios comerciais da década, especialmente em um momento de recuperação após eventos climáticos extremos e retração econômica em 2024.



