São Borja (RS) – Conhecida nacionalmente como a “Terra dos Presidentes”, São Borja deu ao Brasil dois chefes de Estado: Getúlio Vargas e João Goulart. Mas o que poucos lembram é que um terceiro são-borjense também chegou, mesmo que por um breve momento, à Presidência da República: Ibsen Pinheiro, jornalista, jurista e político que presidiu a Câmara dos Deputados durante um dos períodos mais turbulentos da história recente do país — o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello, em 1992.
Em 20 de novembro daquele ano, durante a vacância temporária dos titulares da Presidência e da Vice-Presidência da República, coube a Ibsen, então presidente da Câmara, assumir interinamente o cargo mais alto do Executivo. Foi por poucas horas, mas o gesto teve enorme valor simbólico: pela linha sucessória constitucional, São Borja teve, sim, seu “terceiro presidente”.
A trajetória de Ibsen começou no jornalismo. Nascido em São Borja, atuou na prefeitura de Porto Alegre em 1959 e, na década de 1960, trabalhou na Rádio Gaúcha e no jornal Zero Hora, escrevendo principalmente sobre esportes. No mesmo período, ingressou no Sport Club Internacional, onde chegou à vice-presidência em 1969, integrando o grupo “Os Mandarins”, que liderou uma das fases mais vitoriosas da história do clube.
Seu ingresso na política ocorreu em 1976, como vereador de Porto Alegre pelo MDB. Em seguida, foi deputado estadual e, em 1982, iniciou sua longa trajetória na Câmara dos Deputados. Constituinte em 1986, foi eleito presidente da Casa em 1991 e ganhou projeção nacional ao conduzir o processo de impeachment de Fernando Collor com equilíbrio e firmeza institucional.
À época, sua liderança era tamanha que, segundo relato do ex-deputado Haroldo Lima, comentava-se nos bastidores que, caso o Brasil tivesse adotado o parlamentarismo, Ibsen poderia ter sido o primeiro-ministro do país. Era um dos parlamentares mais respeitados do Congresso.
Contudo, no auge de sua carreira, Ibsen foi alvo de uma denúncia devastadora. Em 18 de novembro de 1993, a revista Veja estampou na capa: “Até tu, Ibsen? Um baluarte do Congresso naufraga em dólares suspeitos”. A matéria afirmava que ele teria movimentado US$ 1 milhão em conta bancária, valor incompatível com sua renda parlamentar.
A repercussão foi imediata. A opinião pública ficou chocada, e, em meio a um ambiente de forte denuncismo, mesmo sem provas concretas, Ibsen teve seu mandato cassado no ano seguinte, após a CPI dos Anões do Orçamento. A cassação marcou profundamente sua trajetória.
Anos depois, veio a revelação que lançaria nova luz sobre os acontecimentos: o próprio autor da reportagem da Veja, o jornalista Costa Pinto, admitiu publicamente que a informação sobre os US$ 1 milhão era falsa. Segundo ele, antes mesmo de a revista ir para a gráfica, já se sabia que o dado não era verdadeiro. Mesmo assim, decidiu-se seguir com a publicação. Para sustentar a narrativa, a redação buscou uma declaração de impacto, obtida junto ao então presidente da CPI, deputado Benito Gama, que afirmou: “Tem movimentação errada e Ibsen vai ter de responder por isso”.
“Foi uma armação jornalística, uma manobra editorial”, revelou Costa Pinto. Depois da morte de Ibsen, o jornalista reafirmou: “O Ibsen nunca foi corrupto”.
Apesar do golpe, Ibsen reconstruiu parte de sua vida pública. Em 2000, teve o processo de sonegação fiscal arquivado pelo Supremo Tribunal Federal. Em 2004, voltou à política como o vereador mais votado de Porto Alegre. Em 2006, foi reeleito deputado federal. Em 2009, apresentou a polêmica Emenda Ibsen, que propunha a redistribuição dos royalties do petróleo entre todos os estados, contrariando os interesses do governo Lula, do qual era aliado. Em 2016, posicionou-se contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff, novamente em defesa da legalidade democrática.
Fora da política, manteve-se próximo do Internacional como conselheiro do clube e encerrou sua carreira jurídica como procurador de Justiça aposentado.
Ibsen Pinheiro faleceu em 24 de janeiro de 2020, aos 84 anos, vítima de uma parada cardiorrespiratória. Sua memória foi recentemente homenageada pela Câmara de Vereadores de São Borja e pelo MDB do Rio Grande do Sul, em reconhecimento ao seu legado político e à injustiça que sofreu.
Hoje, ao relembrar sua trajetória, São Borja reconhece que, além de Vargas e Jango, teve também Ibsen — o jornalista, o parlamentar, o presidente da Câmara e, por um dia, presidente do Brasil.



