O Brasil voltou a figurar entre os 20 países com maior número de crianças não imunizadas no mundo, segundo levantamento divulgado nesta segunda-feira (15) pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Após sair da lista em 2023, com avanços significativos na cobertura vacinal, o país reaparece em 2024 ocupando a 17ª posição — um retrocesso preocupante na agenda de saúde pública.
O número de crianças brasileiras sem nenhuma dose de vacina praticamente dobrou em um ano: saltou de 103 mil em 2023 para 229 mil em 2024. O dado se refere à cobertura da DTP1 — vacina que protege contra difteria, tétano e coqueluche, e que serve como indicador de acesso aos serviços de imunização de rotina. Crianças que não receberam essa ou nenhuma outra vacina são classificadas como “dose zero”.
No cenário mundial, cerca de 14,3 milhões de crianças seguem completamente vulneráveis a doenças preveníveis por vacinas, enquanto outras 5,7 milhões têm proteção parcial. O levantamento também mostra que, em 2024, nenhuma das 17 vacinas monitoradas pela OMS atingiu 90% de cobertura global, patamar considerado ideal para a prevenção de surtos.
Apesar de avanços em alguns países, o quadro global ainda é preocupante. Em comparação com 2023, houve um pequeno aumento no número de crianças que receberam pelo menos uma dose da DTP — foram 171 mil a mais. Também cresceu em 1 milhão o número de crianças que completaram a série com três doses. Ainda assim, cerca de 20 milhões de crianças ficaram sem ao menos uma dose da DTP, número que ultrapassa a meta da Agenda de Imunização 2030.
O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, alertou para os riscos da desinformação e da redução no financiamento da saúde pública.
“As vacinas salvam vidas, permitindo que indivíduos, famílias, comunidades, economias e nações prosperem. É encorajador ver um aumento contínuo no número de crianças vacinadas, embora ainda tenhamos muito trabalho a fazer. Cortes drásticos na ajuda, juntamente com a desinformação sobre a segurança das vacinas, ameaçam desfazer décadas de progresso”, afirmou Tedros.
A OMS também ressaltou que mesmo quedas pequenas na cobertura vacinal podem provocar surtos de doenças evitáveis e sobrecarregar ainda mais os sistemas de saúde, que já enfrentam dificuldades estruturais e operacionais em várias partes do mundo.
A inclusão do Brasil novamente entre os países com mais crianças não imunizadas liga o alerta para autoridades sanitárias. O número crescente de “crianças dose zero” representa não apenas um desafio para o presente, mas um risco potencial para o futuro da saúde pública no país.



