A Argentina registrou no primeiro semestre de 2025 um salto inédito nas compras de carne bovina brasileira: em média, 1.033 toneladas por mês, contra apenas 24 toneladas no mesmo período do ano passado. O dado, divulgado pelo jornal Clarín com base em registros oficiais, representa o maior volume sazonal desde o início da série histórica em 1997.
O movimento foi impulsionado pela decisão do governo de manter um câmbio oficial relativamente forte — cerca de 1.360 pesos por dólar —, o que barateou os produtos importados como forma de tentar conter a inflação. Mas a medida pressiona a balança comercial em um momento em que o Executivo precisa de dólares para estabilizar a economia e cumprir compromissos com o FMI.
Analistas explicam que, embora esses volumes sejam pequenos frente à produção argentina — estimada em 250 mil toneladas mensais —, eles indicam uma mudança no fluxo comercial. “São transações pontuais de compradores próximos à fronteira ou de frigoríficos que operam nos dois países”, afirmou Diego Ponti, especialista do grupo AZ, à Bloomberg.
O presidente da Associação de Produtores Exportadores (APEA), Fernando Herrera, minimiza o impacto. “Outros países importam e exportam carne. Se é do interesse da indústria importar carne barata, que o faça. Não devemos reclamar agora se pedimos para derrubar barreiras antes”, disse ao Clarín.
Apesar do incremento das importações, o consumidor argentino enfrenta alta acelerada nos preços. Só na região metropolitana de Buenos Aires, a carne bovina ficou 53% mais cara em junho, na comparação anual — bem acima da inflação geral de 39%. Em um país onde o churrasco é parte da identidade nacional, essa disparada é acompanhada de perto, sobretudo em ano eleitoral para o presidente Javier Milei.
O Clarín lembra ainda que o cenário global também influencia: com os EUA aplicando tarifa extra de 50% à carne brasileira, parte do excedente pode ser redirecionada à China, o que afetaria a competitividade argentina. Embora não haja ameaça imediata à pecuária local, o fenômeno expõe sinais de transformação na lógica econômica do país vizinho.



