Nesta sexta-feira (15), o plenário da Câmara de Vereadores de São Borja se preparava para ouvir respostas oficiais da Corsan. Mas os representantes da companhia não vieram. A justificativa foi enviada por e-mail: “não houve tempo para realizar o mapeamento de esgoto” no município, uma das exigências da Comissão. O presidente da CPI, vereador Cardial (PP), chamou de “esfarrapada” a desculpa.
Foi nesse silêncio da empresa que outras vozes se levantaram. Dois ex-funcionários, convocados a depor, quebraram a rotina de omissão e abriram os bastidores da concessionária — e também concederam entrevista exclusiva ao Fronteira 360.
Tiago Rolin, que trabalhou como técnico de manutenção, relatou a mudança brusca após a privatização, com a demissão de funcionários experientes: “Muitas vezes não havia treinamento. Nunca deram curso”.
Tiago também trouxe outro cenário, menos visível, mas de impacto direto nas contas e na vida da população: a telemetria. O sistema que permite ligar e desligar bombas à distância, segundo ele, nem sempre garantia água nas torneiras.
“Acredito que isso acontecia em algumas residências, porque quando ligavam, virava uma bomba de ar, e não água na torneira.” Em outras palavras, o hidrômetro girava, a conta subia — mas o que passava pela tubulação era vento.
As denúncias ecoaram no plenário como uma tradução daquilo que a CPI já investiga: cobranças abusivas que poderiam ser explicadas por esse mecanismo invisível.
Ele também narrou cenas que, mais do que descaso, beiram a insalubridade. “Eu entrei dentro do reservatório, tinha muitas pombas, já vi reservatório aberto. Antes tinha uma equipe que fazia a limpeza, mas depois que foi privatizado diminuiu bastante.”
Outro ex-funcionário, Cristian Rodrigues, que atuou como agente comercial, citou ainda a saída de um gestor local por discordar da política de manter os reservatórios sempre no limite mínimo de volume. “Antigamente o reservatório era cheio, mas com a privatização o método é trabalhar com o mínimo”, resumiu, apontando a lógica da contenção de custos e maximização de lucros.
As memórias dos plantões completaram o quadro: madrugadas interrompidas por chamadas de emergência.
“Às vezes, duas ou três horas da manhã, ligavam e tinha que sair correndo para resolver problemas de bomba. Não havia horário fixo”, contou Tiago. Cristian reforçou o clima interno: “Era faz o que eu mando e pronto.”
Agora, do lado de fora, ambos falam também como consumidores. Tiago relatou que, em seu bairro, a água não só faltou por dias seguidos como, quando voltava, vinha turva. “Às vezes, muito escura ou muito branca. E mal estar direto.”
Ao final, o sentimento dos dois se mistura entre alívio e indignação. Alívio por não viver mais sob a rotina extenuante; indignação pelo que presenciaram. Cristian sintetizou diante da CPI e também ao Fronteira 360: “A gente veio prestar esclarecimentos como ex-funcionário e como cidadão.”
Na ausência da empresa, restou à cidade ouvir quem decidiu romper o silêncio.



