“Eles roubaram todo mundo, não só a mim. Eles têm frentes de conflito em todos os lugares.”
A declaração, atribuída a Diego Spagnuolo, ex-diretor da Agência Nacional de Deficiência (ANDIS), aparece em novos áudios divulgados pela imprensa argentina nesta quarta-feira (27) e reforça denúncias de corrupção que atingem diretamente Karina Milei, irmã do presidente Javier Milei, e o subsecretário de Gestão Institucional, Eduardo “Lule” Menem.
Nas gravações, Spagnuolo detalha um esquema de propinas na compra de medicamentos, afirmando que os desvios chegavam a até 8% de cada contrato, valores que variavam entre US$ 500 mil e US$ 800 mil por mês. Segundo ele, Karina ficava com cerca de 3% do montante e Menem controlava as operações. Em outro trecho, o ex-diretor afirma ter alertado o próprio presidente: “Eles não consertaram nada.”
Spagnuolo foi demitido um dia antes da operação policial que revelou o caso e, nas gravações, insiste em que o governo tenta transformá-lo em bode expiatório. Para reforçar essa narrativa, ele cita o porta-voz presidencial, Manuel Adorni, criticando a estratégia oficial de comunicação: “Veja a comunicação, você tem aquele idiota do Adorni, a quem demos todas as informações. Nós dissemos a ele que essa pensão não foi concedida, aquela sobre o raio-X do cachorro. E eu tenho que ficar explicando que essa pensão não foi concedida.”
A referência é a uma coletiva em que Adorni exibiu uma radiografia de cachorro para exemplificar suposta fraude em pensões durante gestões anteriores.
As revelações aumentam a pressão sobre o governo, já que a Justiça encontrou durante as buscas carros, celulares, uma máquina de contagem de dinheiro e US$ 266 mil em espécie (cerca de R$ 1,5 milhão). Apesar da gravidade das acusações, a veracidade dos áudios ainda não foi confirmada e não há prisões ou denúncias formais até agora.
A proximidade entre Milei e Spagnuolo também chama atenção. Registros oficiais mostram que, em apenas 15 meses, o ex-diretor esteve 82 vezes nas residências presidenciais — uma média de uma visita a cada cinco dias, número incomum para alguém sem status ministerial.
Na casa dele, a polícia encontrou ainda uma procuração assinada por Javier Milei que lhe dava poderes para representá-lo judicialmente, evidenciando a ligação entre ambos, apesar da falta de experiência de Spagnuolo na pasta que ocupava.
Em meio à crise, Spagnuolo chegou a elogiar a vice-presidente Victoria Villarruel, hoje rompida com Milei, afirmando que ela “não rouba”.
O presidente reagiu nesta quarta-feira, negando as denúncias contra a irmã: “Tudo o que ele diz é mentira, vamos levá-lo à Justiça e provar que mentiu”, declarou ao canal C5N.
Horas depois, Milei foi atacado por pedras e garrafas em uma carreata em Lomas de Zamora e precisou ser retirado às pressas do local.
Com informações do g1, Clarín e podcast “Café da Manhã” da Folha de São Paulo.



