Presidente nacional do Progressistas (PP), o senador Ciro Nogueira teria recebido, em seu gabinete no Senado, uma sacola de papelão contendo dinheiro vivo. A entrega, segundo relato formalizado à Polícia Federal, foi feita por intermédio de Mohamad Hussein Mourad, o “Primo”, e Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco” — apontados como chefes de um esquema bilionário do Primeiro Comando da Capital (PCC) ligado a fraudes fiscais no setor de combustíveis e à manipulação de fundos de investimento na Faria Lima.
É o que narra uma fonte anônima em entrevista ao ICL Notícias, que afirma ter tido contato direto com os dois líderes do esquema. De acordo com seu testemunho, o próprio Beto Louco teria confirmado que a sacola seria entregue a Ciro Nogueira, durante um encontro em Brasília no ano passado.
“Eles estavam indo encontrar o Ciro, em posse dessa sacola”, declarou a fonte, em entrevista gravada aos jornalistas Leandro Demori e Cesar Calejon.
De acordo com a testemunha, a propina estaria ligada à defesa dos interesses das empresas Copape e Aster, envolvidas em fraudes fiscais e lavagem de dinheiro. Além de tentar reverter a cassação de licenças pela Agência Nacional do Petróleo (ANP), os acusados buscavam influência em projetos de lei que tramitam no Senado, especialmente os que tratam da figura do devedor contumaz — mecanismo que pune empresas que fazem da inadimplência tributária um modelo de negócio.
Em junho de 2024, o senador Ciro Nogueira (presidente do Progressistas) apresentou duas emendas ao PL 125/2022, relatado por Efraim Filho (União-PB). Uma previa excluir setores com influência estatal na formação de preços (como combustíveis) da classificação de devedor contumaz, e a outra deixava a decisão para a agência reguladora (no caso, a ANP). Ambas foram rejeitadas.
Nogueira já havia apresentado proposta semelhante em 2023, também rejeitada. O PL foi aprovado na CCJ em abril de 2024, e após a deflagração da Carbono Oculto, o presidente do Senado Davi Alcolumbre (União-AP) pautou a votação no plenário.
A Polícia Federal agora investiga se houve relação entre essas movimentações legislativas e os interesses do grupo criminoso.
A resposta de Ciro
Ciro Nogueira reagiu por meio de um ofício enviado ao ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, no qual negou as acusações, chamou o ICL de “site de pistoleiros” e disse colocar “todos os seus sigilos à disposição da Justiça”.
“Jamais tive proximidade de qualquer espécie [com os acusados], e portanto nunca poderia ter advogado em benefício delas (…) ou ter sido favorecido financeiramente de qualquer forma. Isso é absolutamente mentiroso”, afirmou.
A Operação Carbono Oculto
Os supostos doadores da propina, Primo e Beto Louco, estão foragidos desde a última quinta-feira (28), quando a PF, Receita Federal e Ministério Público de São Paulo deflagraram a Operação Carbono Oculto. O alvo é um esquema bilionário de lavagem de dinheiro e fraudes fiscais que abastecia o PCC, movimentando desde usinas e distribuidoras até redes de postos de combustíveis e fundos de investimento.
Só a Copape, uma das empresas centrais do esquema, é acusada de ter sonegado R$ 1,38 bilhão de ICMS entre 2020 e 2021. A ANP cassou suas licenças em novembro de 2024, decisão mantida neste ano. Segundo o MP-SP, o grupo fraudava operações entre a Copape e a Aster, inflando preços para gerar créditos tributários indevidos e esconder a origem do dinheiro ilícito.
Política e negócios
Ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro e figura central do Centrão, Ciro Nogueira é considerado um dos políticos mais influentes do Congresso. Além de defender pautas de interesse do mercado financeiro, ele esteve recentemente em disputa pela indicação do comando da ANP, cargo estratégico para o setor de combustíveis.
Agora, a denúncia feita pela fonte abre uma nova frente nas investigações da Polícia Federal: a possível conexão direta entre o maior grupo criminoso do país e os corredores do poder em Brasília.



