O presidente da Argentina, Javier Milei, sofreu neste domingo (7) uma dura derrota eleitoral na província de Buenos Aires, o maior distrito eleitoral do país e considerado um termômetro para as eleições legislativas nacionais de 26 de outubro. A coalizão peronista Fuerza Patria alcançou cerca de 47% dos votos, enquanto o partido governista La Libertad Avanza (LLA) ficou em torno de 34%. A diferença de mais de 13 pontos foi classificada pela imprensa argentina como um golpe político significativo para o governo.
Buenos Aires concentra quase 40% do eleitorado nacional, o que amplia o peso político do resultado. De acordo com as projeções, o Fuerza Patria garantirá maioria no Senado provincial, com 13 das 23 cadeiras em disputa, além de 21 dos 46 assentos da Câmara dos Deputados locais. Já a LLA deverá ocupar oito vagas no Senado e 18 na Câmara.
A derrota foi reconhecida pelo próprio Milei, que tentou minimizar os efeitos. “Hoje tivemos uma clara derrota e há que aceitá-la. Mas não se retrocede nem um milímetro na política do governo, o rumo será acelerado ainda mais”, declarou em discurso no comitê de campanha montado em La Plata.
O presidente atribuiu o revés à força da máquina peronista: “Eles colocaram todo o aparato que controlam há 40 anos. Esse é o teto deles e o piso para nós”, afirmou.
Do lado oposicionista, o governador Axel Kicillof comemorou os números e fez críticas diretas ao presidente. “O recado das urnas é que não se pode governar para os de fora, para os que mais têm. Milei, você tem que governar para o povo”, disse, em um ato que reuniu lideranças locais.
A ex-presidente Cristina Kirchner, que cumpre prisão domiciliar, também enviou uma mensagem celebrando o resultado e chegou a ironizar Milei nas redes sociais: “¿Viste, Milei?”.
O pleito teve participação de cerca de 63% dos eleitores, índice inferior ao de eleições anteriores, mas ainda acima do esperado para um processo realizado em data separada das nacionais.
Além dos dois principais blocos, ficaram distantes na disputa o Somos Buenos Aires (5%) e a Frente de Izquierda y de los Trabajadores Unidad (4%).
A magnitude da derrota surpreendeu o governo, que havia apostado todas as fichas na campanha e chegou a anunciar que Buenos Aires seria “o último prego no caixão do kirchnerismo”. A realidade foi o contrário: o peronismo saiu fortalecido, tanto nas urnas quanto no Congresso provincial, onde já impôs reveses ao Executivo.
A crise foi agravada pela divulgação de áudios e conversas privadas de Karina Milei, irmã do presidente e sua principal articuladora política, que expuseram uma suposta rede de propina e corrupção dentro do governo e que enfraqueceram ainda mais a estratégia eleitoral.
Analistas políticos apontam que o resultado cria um cenário mais desafiador para Milei a menos de dois meses das legislativas nacionais. A oposição, unida, ganhou fôlego, enquanto a Casa Rosada enfrenta turbulências econômicas, com inflação alta, dólar pressionado e medidas emergenciais que não têm revertido a instabilidade.
O governador Kicillof, fortalecido internamente, emerge como um dos grandes vencedores da noite e já é visto como possível nome para disputar a presidência em 2027. Para Milei, o desafio será conter a crise econômica e manter a base de apoio até outubro, quando as urnas voltarão a testar a força de seu projeto político.



