Derrota de Milei não se deu no campo das teorias econômicas, mas sim no chão das fábricas, nos hospitais e nas casas das famílias

Uma análise de Gastão Ponsi

Minhas ligações com a República Argentina exigem sempre manter um olhar para esse país continental.

No último domingo, acompanhei “pari passu” a movimentação eleitoral na Grande Buenos Aires.

E, no domingo (7) de setembro de 2025, se tornou um divisor de águas na política argentina, transformando o que parecia uma disputa local em um evento de repercussão nacional e internacional.

A vitória contundente do governador Axel Kicillof foi além de um simples resultado eleitoral; ela funcionou como um referendo popular sobre o plano econômico do governo de Javier Milei e os seus impactos na vida cotidiana dos argentinos. 

Esse resultado inesperado, um verdadeiro “cisne negro” para os mercados, revela uma profunda insatisfação popular que pode moldar os próximos dois anos e a corrida presidencial de 2027.

A derrota do governo de Milei não se deu no campo das grandes teorias econômicas, mas sim no chão das fábricas, nos hospitais e nas casas das famílias. 

A província de Buenos Aires, com sua enorme população e peso econômico, se tornou o palco onde a “micro” venceu a “macro”. 

As políticas de ajuste fiscal e abertura de importações, embora defendidas como essenciais para a saúde macroeconômica, resultaram em uma queda de 2,2% no Produto Bruto Geográfico provincial em 2024.

O impacto foi devastador para a indústria, que viu o fechamento de empresas e a demissão de milhares de funcionários. 

A capacidade ociosa de 40% nas fábricas, o aumento das importações e a consequente perda de empregos criaram um cenário de descontentamento.

Os cidadãos, que em 2023 votaram em Milei, agora sentem na pele as consequências do plano. 

A postura do governo, de se aplaudir e culpar a “casta” e os opositores, não ressoou com um eleitorado que buscava respostas para a sua realidade. 

A população viu a “mão invisível” do mercado se tornar visivelmente prejudicial, com cortes em áreas sensíveis como a assistência a pessoas com deficiência e o congelamento de obras públicas.

A vitória de Kicillof não apenas validou sua gestão, mas também o consolidou como o principal líder da oposição. 

Os militantes, em euforia, já o aclamam para a “condução” nacional, e sua campanha para 2027 já está em marcha. 

A criação do Movimento Direito ao Futuro (MDF) busca unir as forças antagônicas a Milei e construir um plano de governo coeso, evitando os erros do passado. 

No entanto, muito dependerá da habilidade de Kicillof na costura de uma coesão entre as diversas forças políticas e na redução dos graves erros cometidos no passado.

Nos mercados, a notícia causou um abalo imediato. 

A incerteza se espalhou, com o dólar cripto subindo e as ações de grandes empresas caindo. 

A resposta do ministro da Economia, Luis Caputo, de que “nada vai mudar”, pareceu mais uma tentativa de contenção de danos do que uma garantia sólida, indicando que o governo agora terá que lidar com pressões adicionais. 

O resultado é um alerta para os investidores, que veem a possibilidade de que as reformas de Milei se tornem inviáveis por falta de apoio político.

A eleição mostrou que a população não está disposta a aceitar sacrifícios sem ver resultados e empatia por parte do governo. 

Os eleitores, sejam eles funcionários públicos, aposentados, ou famílias que perderam o emprego, sentiram que o plano econômico não era para eles. 

A mensagem é clara: não se pode subestimar o impacto social das políticas macroeconômicas.

O “tsunami político” na província de Buenos Aires é um sinal de que o governo de Milei precisa urgentemente recalibrar sua abordagem. 

A pergunta que paira no ar é se o presidente está disposto a “guardar a motosserra para operar no hospital de guerra” e adotar uma “cirurgia fina”, ou se persistirá com o mesmo discurso e as mesmas políticas. 

Para a oposição, a eleição abriu as portas para uma nova era, onde a liderança de Kicillof se projeta como a grande alternativa para as próximas eleições presidenciais. 

A disputa não é mais apenas ideológica; ela agora se manifesta nas urnas, com a realidade se impondo sobre os planos e as promessas.

O desempenho de Kicillof na província de Buenos Aires levanta a questão de se o peronismo, em 2023, fez a escolha errada ao não colocá-lo como candidato à presidência. 

Naquele pleito, a chapa foi liderada por Sergio Massa.

Kicillof, um economista de viés keynesiano, já tinha uma base de apoio sólida na província mais populosa do país e era o principal antagonista de Milei, ideologicamente.

A vitória de Kicillof agora pode ser interpretada de duas maneiras:

A vitória do governador mostra que ele tinha um forte apelo eleitoral e uma narrativa de defesa do “Estado presente” que ressoava com a população, especialmente em um momento de crise.

Sua escolha como candidato à presidência em 2023 poderia ter unificado o peronismo e atraído votos de setores que se sentiram prejudicados pelas políticas de austeridade. 

O resultado atual sugere que a chapa liderada por Massa, por motivos que incluem seu histórico político e seu próprio plano econômico, não conseguiu mobilizar o eleitorado de forma tão eficaz.

Por outro lado, a escolha de não colocar Kicillof na disputa presidencial pode ter sido uma estratégia deliberada para proteger o “último bastião peronista”. 

Ao mantê-lo na província de Buenos Aires, o peronismo garantiu que a principal e mais rica província do país permanecesse sob seu controle. 

Se Kicillof tivesse perdido a eleição presidencial, o peronismo não teria um líder forte e uma base de poder consolidada para enfrentar Milei nos anos seguintes. 

A derrota de Milei na província, agora, fortalece Kicillof e o posiciona de forma estratégica para 2027.

Em suma, o desempenho de Kicillof hoje não é apenas um sinal de sua popularidade, mas também um lembrete da complexidade das decisões políticas. 

A vitória de agora pode ser a prova de que a escolha do candidato em 2023 foi malfeita, ou, paradoxalmente, que foi a única maneira de preservar o peronismo para uma futura batalha. 

O tempo dirá qual das duas interpretações se provará verdadeira.

Por Gastão Ponsi

Maicon Schlosser

Jornalista

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