Um sofisticado esquema de falsificação de documentos que “lavou” a origem de aproximadamente 14 mil animais – 13 mil cavalos e 800 cabeças de gado – ao longo de 17 anos foi desarticulado pela Polícia Civil do Rio Grande do Sul na manhã desta terça-feira (9). A fraude, que inseriu dados falsos no sistema oficial do governo estadual, permitiu a venda de animais, muitos possivelmente fruto de roubo (abigeato), para frigoríficos.
A operação cumpriu oito mandados de busca e apreensão em várias cidades. O cerne do golpe, de acordo com a investigação, era a ação de um servidor público lotado na Inspetoria Veterinária de Arroio do Tigre, identificado pela reportagem como Gilson Dutra de Oliveira. Ele é suspeito de manipular o sistema da Secretaria Estadual da Agricultura (SEAPDR) para emitir Guias de Trânsito Animal (GTAs) falsas, atribuindo origem legal aos animais sem procedência.
“Ele criava saldo de animais, muitas vezes ressuscitando cavalos que já haviam morrido ou multiplicando rebanhos em propriedades onde nunca houve criação. Assim, conseguia justificar o transporte das cargas dentro do estado”, detalhou a delegada Graciela Chagas, de Arroio do Tigre, responsável pelo inquérito.
Os animais com documentação fraudada eram vendidos inicialmente para compradores em Santa Maria e, em seguida, repassados ao Frigorífico Foresta, localizado em São Gabriel. A polícia ressalta que o frigorífico agia de boa-fé, sem conhecimento da fraude.
Métodos Bizarros e Riscos à Saúde
A investigação revelou manobras audaciosas para burlar o sistema. Éguas “davam à luz” filhotes que, em questão de minutos no sistema, tornavam-se adultos aptos para o abate. Em uma das fraudes, os dados sugeriam que cavalos percorreram 500 quilômetros em apenas 7 minutos. A fraude ia além da origem: exames veterinários obrigatórios, que atestam a sanidade do rebanho e a segurança da carne para consumo, também eram falsificados.
Produtores usados como “laranjas” e prejuízos
Cerca de 150 produtores rurais foram usados como “laranjas” no esquema, tendo seus nomes e registros utilizados sem seu conhecimento para emitir as GTAs fraudulentas.
O agricultor Everaldo Vieira, de Viamão, foi um dos prejudicados. Seu nome apareceu em uma guia de trânsito em setembro de 2023 para uma transação que nunca fez. “Eu nunca movimentei esse gado. Fiquei surpreso”, afirmou. Caso semelhante aconteceu com Avelino Pruch de Jesus, ex-criador de Canela, que descobriu ter “transportado” oito cavalos para uma cidade que nem conhece. “Se me derem R$ 20 mil hoje para eu ir até Arroio do Tigre, eu perco. Porque eu nem sei onde fica”, disse.
Investigados e Defesa
As buscas foram realizadas também na propriedade do advogado Eloy Irigaray, em Santa Maria, e na casa de seu filho, Pablo Irigaray, em Júlio de Castilhos. Eles são investigados por adquirir animais com a documentação falsa. Em 2024, Eloy foi candidato a vereador pelo PSD na cidade, com o lema de campanha “com a fé e a verdade, eu não brinco”. Procurado, um familiar informou que ele não se manifestaria. A reportagem não conseguiu contato com Pablo Irigaray.
O Frigorífico Foresta informou que vai buscar informações do inquérito e, posteriormente, se colocará à disposição para se manifestar. Gilson Dutra de Oliveira, o servidor suspeito de cometer as fraudes, também se recusou a comentar o caso.
Denúncia e Afastamento
As primeiras denúncias partiram de produtores rurais legítimos à SEAPDR ainda em 2023. Na época, o acesso de Gilson ao sistema foi bloqueado, mas, segundo a investigação, ele continuou a agir usando a senha de um colega. Ele foi afastado do cargo posteriormente.
Francisco Lopes, diretor-adjunto do Departamento de Vigilância e Defesa Sanitária Animal, confirmou que a secretaria instaurou um processo administrativo e orientou os criadores a registrarem ocorrência na Polícia Civil. As investigações criminais seguem em andamento para apurar a totalidade do esquema e identificar todos os envolvidos.



