Na Praça XV, na esquina do Centro de Atendimento ao Turista, em São Borja, um homem de boa prosa e olhar atento dispõe saquinhos de ervas sobre a mesa. Ele se chama Claudio Sales, vem da Aldeia de Aguaí, perto de Tenente Portela, e carrega consigo não apenas plantas, mas um pedaço da memória de seu povo. “Todo ano eu venho aqui apresentar meu trabalho. Sempre sou bem recebido. É o conhecimento dos índios sobre a natureza que eu trago”, explica.
Sales é Kaingang, mas lembra que na reserva onde vive também há indígenas Guaranis. Da convivência, nascem as trocas desaberes, multiplicando a sabedoria. Alguns dos chás vêm de longe, como os do Mato Grosso do Sul, preparados pelos Terena. “É uma troca de conhecimento, pois tudo isso é passado de geração em geração, dos nossos antepassados até os mais novos”, explica.
Ele não vende apenas remédios naturais; oferece também escuta. Quem chega é recebido como em uma pequena consulta. O cliente descreve sintomas, ansiedades, dores, e então Claudio indica qual chá pode ajudar. São mais de sessenta opções: para diabetes, estômago, rins, próstata, coluna, nervos. O mais procurado? “Remédio para diabete e para impotência sexual. Até agora, graças a Deus, ninguém reclamou”, brinca.
Com 25 anos de estrada, Claudio atravessa cidades, deixando uma trilha de confiança. Sales está hoje em São Borja e fica até sexta. Depois, segue suas andanças pelo estado e região, sempre com o mesmo cuidado: não apenas vender, mas partilhar o que considera sagrado. “É como uma alimentação. Quem gosta, volta. E quem volta, traz mais gente.”
Assim, entre saquinhos de ervas e histórias passadas de boca em boca, ele reafirma que o conhecimento ancestral não cabe em bula, mas se mantém vivo no gesto simples de oferecer um chá quente e um conselho.



