“Sempre fui um cara apolítico, por assim dizer”, afirma Evandro Augusto, em um dos primeiros momentos de nossa conversa. A declaração, pouco comum para um pré-candidato a governador, reflete seu perfil de outsider, um fenômeno crescente na política contemporânea.
Natural de Santa Cruz do Sul, Evandro vem de uma família de agricultores e é formado em jornalismo pela UNISC. Porém, construiu sua carreira na segurança pública: em 2014, assumiu como policial rodoviário federal, função que mantém até hoje.
Agora, ele se prepara para o desafio de concorrer ao governo do Rio Grande do Sul pelo recém-criado Partido Missão, ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL), que reacendeu seu interesse pela política.
“Meu interesse começou a surgir a partir do impeachment da Dilma Rousseff e da atuação do MBL. Vi esperança nos movimentos de rua e na Lava Jato”, lembra.
Apoiador de Jair Bolsonaro em 2018, Evandro se decepcionou com o não cumprimento de promessas de campanha. “Várias pautas de combate à corrupção e algumas privatizações não foram realizadas”, afirma. Essa frustração o levou a se posicionar na oposição, junto do MBL.
Recentemente, vem ganhando visibilidade comentando sessões da Câmara de Vereadores de Santa Cruz do Sul e problemas políticos do estado nas redes sociais.
“Meu trabalho era mais nos bastidores. Mas quando comecei a divulgar vídeos comentando sessões da Câmara de Vereadores, surgiram repercussões. As pessoas começaram a me procurar como liderança ou porta-voz. A partir disso, o partido Missão me convidou para pré-candidatura”, afirma.
No entanto, como afirmou, já atuava nos bastidores do partido, sendo um dos fundadores da Revista Valete, eixo-cultural do Missão.
Em entrevista exclusiva ao Fronteira 360, ele criticou o que chama de “show político” nas redes, em que partidos priorizam likes e narrativas em vez de propostas concretas.
“A gente quer resolver problemas, parar com esse show. Temos que sentar na mesa como adulto e conversar com qualquer nação”, citando como exemplo possíveis investimentos da China em ferrovias no estado.
Evandro se apresenta como alternativa às narrativas polarizadas e aos conchavos partidários, defendendo diálogo entre diferentes campos ideológicos. “É o que eu faço na minha região. Tem muita se gente de esquerda que dialoga comigo pois entende que eu quero resolver problemas, não importa a ideologia”, afirma.
Entre suas prioridades estão o combate ao crime organizado, fortalecimento das polícias Civil e Militar, infraestrutura e desenvolvimento econômico, incluindo expansão da malha ferroviária estadual.
Ele destaca a necessidade de enfrentar desafios estruturais, como déficit de efetivo policial e a infiltração de organizações criminosas em órgãos públicos. “Ninguém propõe soluções sérias. Nós queremos enfrentar isso de frente”, afirma.
Sobre o Partido Missão, ele reconhece que o movimento é rechaçado por grande parte do eleitorado bolsonarista e petista, mas vê nisso um diferencial.
“Para a esquerda, o MBL é fascista e golpista. Já para o Bolsonarismo, a gente é a nova esquerda. Mas só o fato da gente não ter cedido ao Bolsonarismo já mostra muita coisa”, afirma, citando como exemplo o deputado Kim Kataguiri, que em sua análise, seria maior que Nikolas Ferreira hoje se tivesse se abraçado ao Bolsonarismo.
Como diferença para o movimento bolsonarista, ele aponta que o Missão irá cumprir com suas promessas de campanha, que devem ser anunciadas em sua totalidade no ano que vem, através do Livro Amarelo, do qual Evandro é um dos autores. Além disso, rechaça o autoritarismo e diz não apoiar nenhum tipo de intervenção militar.
“É impossível apoiar algo assim. Um golpe militar em 2025, seria um desastre. O que seria do país economicamente e institucionalmente, com um golpe militar?”, questiona, em tom de crítica.
Além disso, pede para que as pessoas ouçam as propostas do partido antes de formarem opiniões. “Ouçam nossas propostas, ouçam o que está sendo votado e saiam desse discurso de internet de like e show”, declara.
Mesmo sem experiência eleitoral, Evandro aposta na coerência e na trajetória pessoal. De origem humilde, conquistou através da educação uma vida tranquila, o que faz muitos o questionarem sobre qual motivo o levou a entrar para a política.
Para ele, parte disso tem a ver com que viu nos últimos anos no cenário político brasileiro, com o retorno do PT ao poder e os movimentos golpistas, ambos acontecimentos condenáveis em sua visão. “Eu me vi dentro da possibilidade de criar um movimento ou um partido com ideias próprias, com coragem para enfrentar as duas frentes”, explica.
Além disso, é uma missão pessoal e a busca por um legado eterno. “Eu quero deixar meu nome na história como alguém que teve coragem de fazer esse enfrentamento com coragem. Que, quando eu partir deste mundo, lembrem de mim como alguém que tentou fazer algumas coisa”, conclui.
A entrevista completa vai ao ar ainda nesta semana através do podcast À Margem dos Fatos.



