Argentinos voltam às urnas neste domingo (26) em meio à crise política, denúncias de corrupção e desgaste econômico. Votação é vista como um plebiscito sobre a gestão de Javier Milei.
A Argentina volta às urnas neste domingo (26/10) para uma eleição que promete muito mais do que a simples renovação de cadeiras no Congresso. O pleito legislativo se transformou em um referendo sobre o presidente Javier Milei, que, menos de dois anos após assumir o poder com a promessa de “refundar o país”, enfrenta queda de popularidade, escândalos e uma economia que ainda não encontrou estabilidade.
Com metade da Câmara dos Deputados (127 das 257 cadeiras) e um terço do Senado (24 das 72) em disputa, Milei busca garantir sustentação política para manter seu plano econômico ultraliberal. Uma derrota neste domingo significaria, na prática, um bloqueio quase total à sua agenda de reformas fiscais e trabalhistas, pilares do projeto que o levou à Casa Rosada.
Campanha sob tensão e discurso de confronto
O presidente encerrou a campanha na última quinta-feira (23) em Rosário, em um comício marcado por símbolos grandiosos e retórica agressiva. Vestindo sua tradicional jaqueta de couro preta, Milei voltou a se autoproclamar líder do “primeiro governo libertário do mundo” e pediu tempo para “completar a reconstrução nacional”.
“Apesar do impeachment do Congresso, entramos nesta eleição de cabeça erguida. A partir de domingo, a Argentina mudará radicalmente”, disse, em tom de desafio.
A confiança, no entanto, contrasta com o cenário político real. O governo chega enfraquecido por demissões em série, derrotas legislativas e denúncias envolvendo aliados próximos, como o ex-candidato José Luis Espert, acusado de ligações com o narcotráfico e Karina MIlei, irmã do presidente, citada em escândalo de corrupção.
Pesquisas mostram desgaste e incerteza
Segundo levantamento da AtlasIntel, divulgado na sexta-feira (24), 55,7% dos argentinos desaprovam a gestão Milei, contra 39,9% que ainda a apoiam — o pior índice desde o início do mandato.
A pesquisa revela uma insatisfação crescente com o custo de vida, o desemprego e a percepção de corrupção. Entre os entrevistados, 68% afirmam que a economia “vai mal” e 70% dizem que o mercado de trabalho piorou.
Mesmo assim, a coalizão La Libertad Avanza segue ligeiramente à frente nas intenções de voto nacionais, com 41,1%, seguida pela aliança peronista Fuerza Patria, com 37,2%, e o bloco Provincias Unidas, formado por governadores regionais, com 5,8%.
Apoio de Trump e pressão externa
A campanha de Milei contou com o apoio explícito do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que condicionou ajuda financeira à vitória nas urnas.
“Se perder, não contará conosco. Não seremos generosos”, afirmou Trump durante um encontro bilateral.
Na prática, o governo norte-americano realizou a compra de US$ 20 bilhões em pesos argentinos, em um acordo de swap cambial que garantiu fôlego temporário ao Banco Central e ajudou a conter a volatilidade do câmbio.
O ministro da Economia argentino, Luis Caputo, classificou a votação como “mais importante do que a presidencial de 2027”. Segundo ele, o resultado deste domingo será “um sinal ao mundo” sobre a continuidade das políticas de ajuste e o compromisso da Argentina com o equilíbrio fiscal.
Novo sistema de votação e incertezas nas urnas
Além das tensões políticas, os argentinos enfrentarão um novo sistema eleitoral. Pela primeira vez, o país utilizará a cédula única de papel (BUP), adotada em 2024, e não haverá as primárias obrigatórias (PASO).
O novo formato, mais simples e padronizado, substitui as antigas cédulas distribuídas por partidos, mas ainda gera dúvidas entre eleitores e fiscais.
Atualmente, a coalizão de Milei conta com 79 deputados e 14 senadores, somando aliados. O objetivo é conquistar ao menos um terço das cadeiras do Congresso, número suficiente para aprovar medidas e impedir ações da oposição.
Uma vitória expressiva pode liberar reformas travadas e fortalecer a imagem do presidente. Já uma derrota significativa pode simbolizar o início de uma erosão política difícil de conter e colocar em xeque a sobrevivência do governo até 2027.
Com informações Metrópoles.



