Pedro Ortaça recebeu a honraria em nome do grupo que marcou a história da música e da identidade missioneira. Jayme Caetano Braun, Noel Guarany e Cenair Maicá foram homenageados in memoriam.
“Este é um dia histórico, um dia em que a universidade pública se ajoelha com humildade diante da grandeza da cultura popular. E, ao mesmo tempo, levanta-se com orgulho para dizer: Doutores, sim! Mestres, sim! Patrimônio vivo, sim!”.
Com essas palavras, o reitor da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), Edward Frederico Castro Pessano, abriu a solenidade de concessão do título de Doutor Honoris Causa aos Quatro Troncos Missioneiros — Pedro Ortaça, Jayme Caetano Braun, Noel Guarany e Cenair Maicá. O evento ocorreu na sexta-feira (24), no Espaço Messa, em São Luiz Gonzaga, berço de três dos quatro artistas que se tornaram símbolo da identidade missioneira.
Celebração da arte e da ancestralidade
A mesa de autoridades foi composta pelo reitor e pela vice-reitora da Unipampa, Edward Pessano e Francéli Brizolla; pelo diretor do Campus Itaqui, José Carlos Severo Correa; por Pedro Ortaça; e pelos representantes das famílias dos demais homenageados: Patrício Maicá, representando Jayme Caetano Braun; Laura Guarany, filha de Noel Guarany; e Miguel Caraí Maicá, filho de Cenair Maicá.
A cerimônia teve início com a apresentação do Fênix Grupo Folklorico, que emocionou o público com uma adaptação coreográfica do espetáculo “Missões: a saga Jesuítico-Guarani”. Na sequência, o professor Augusto Gonzaga Oliveira de Freitas, proponente do título, fez a leitura do parecer que fundamentou a homenagem.
“Eles criaram uma distinta identidade musical, uma nova forma de ver e expressar a realidade do povo missioneiro e gaúcho”, destacou o professor. “Suas obras misturam a melodia ancestral guarani com o pulsar do gaúcho campeiro, o ritmo espanhol e a poesia da vida sulista”.
Reconhecimento ao legado missioneiro
Em seguida, teve início o momento mais aguardado da noite: a outorga dos títulos de Doutor Honoris Causa.
Pedro Ortaça foi o primeiro a receber a honraria das mãos dos professores Udo Sinks e Valmor Rhoden, integrantes da Comissão de Honra. A veste talar, a samarra e a borla simbolizam, respectivamente, igualdade e humildade diante do saber, proteção e dignidade do conhecimento, e o símbolo máximo da sabedoria.
“Fico muito contente com essa homenagem, porque a caminhada foi longa e difícil. Nós lutamos, os quatro, para ter o reconhecimento da nossa região, da nossa música e da história através do verso e da cantiga missioneira”, declarou Ortaça, visivelmente emocionado.
O músico também fez questão de saudar o povo guarani, presente na cerimônia, e lembrou dos desafios e injustiças enfrentados pelo grupo ao longo da trajetória.
Emoção e memória
O título concedido a Cenair Maicá foi recebido por seu filho, Miguel Caraí Maicá, que destacou o orgulho da família e o simbolismo do reconhecimento.
“É um prazer, uma imensa satisfação para a nossa família, para a família dos Troncos Missioneiros, receber essa conquista, esse carinho”, afirmou.
Laura Guarany, filha de Noel Guarany, também falou em nome do pai. Em meio à emoção, ela ressaltou a importância do legado artístico e o significado da homenagem:
“Nós temos um orgulho tão grande de receber esse título, porque o pai viveu 56 anos — foi tão pouco tempo, mas ele deixou um legado que permanece vivo”.
Patrimônio da cultura gaúcha
O título de Doutor Honoris Causa aos Quatro Troncos Missioneiros é mais que um reconhecimento individual: representa o encontro entre a universidade e a cultura popular, entre o saber acadêmico e o saber do povo.
Para o reitor Edward Pessano, a homenagem consagra a missão da Unipampa de valorizar as raízes culturais do Rio Grande do Sul.
“Os Quatro Troncos Missioneiros são parte da alma do nosso povo. Com esta homenagem, a universidade reafirma seu compromisso com a memória, com a arte e com a identidade que nos forma como comunidade”, declarou.
A noite terminou sob aplausos e emoção, numa celebração da música, da história e do espírito missioneiro que segue vivo, agora também reconhecido como doutor em cultura e resistência.



