“Operações desse tipo não enfraquecem o crime, ajudam ele a se reorganizar”, diz diretora do Instituto Fogo Cruzado

Após a megaoperação policial que deixou mais de cem mortos no Rio de Janeiro nesta terça-feira (28), incluindo quatro policiais, a diretora do Instituto Fogo Cruzado, Cecília Oliveira, voltou a criticar o modelo de enfrentamento armado adotado no estado há décadas. Para ela, o padrão de grandes incursões nas favelas repete erros históricos e apenas contribui para a reorganização do crime, sem atingir sua base financeira e estrutural.

“Operações desse tipo não enfraquecem o crime organizado, elas ajudam o crime apenas a se reorganizar”, afirmou Cecília em entrevista ao UOL. “A gente está aqui depois de GLO, de intervenção federal, de Força Nacional… e continuamos com o tráfico cada vez mais forte, ocupando cada vez mais espaço.”

Na avaliação da especialista, o resultado da operação, que teria como alvo o traficante conhecido como Doca, apontado como liderança do Comando Vermelho, mostra o esgotamento do modelo.

“Nem prenderam o Doca, nem recuperaram o território. Perdemos vidas de policiais e de moradores, parou-se a cidade, e não se consegue mensurar o tamanho do estrago social e econômico que foi causado”, disse.

Cecília destacou que, enquanto no Rio de Janeiro o crime se estrutura a partir do domínio territorial, em São Paulo o poder do PCC está mais concentrado no controle financeiro e logístico. Por isso, ela defende que o combate ao crime organizado deve mirar também o fluxo de dinheiro e as relações de corrupção que o sustentam dentro das próprias instituições do Estado.

“O crime organizado depende do dinheiro para expandir. E esse dinheiro continua circulando porque há complacência dentro do próprio Estado. Esse tipo de estrutura não se move sozinha — precisa da corrupção de algum ente estatal”, alertou.

Para a diretora do Fogo Cruzado, a eficácia no enfrentamento ao crime exige ações de inteligência, cooperação federativa e desarticulação das redes financeiras das facções e não apenas a ocupação militar de territórios. “O que se viu ontem foi uma repetição dos mesmos erros desde os anos 1980”, disse.

Para a especialista, a repetição de operações e promessas de prisão de líderes do crime organizado não se traduz em resultados concretos para a população.“De todos os nomes que o governo vem anunciando — Abelha, Zinho, Tandera, Peixão, agora o Foca — o único preso foi o Zinho, que se entregou. Nenhuma ação concreta foi cumprida”, afirma.

Segundo Cecília, as promessas feitas pelo governador Cláudio Castro, que incluem a captura de chefes do crime organizado e a retomada de territórios, não se concretizaram nos últimos anos. Para ela, a repetição de grandes operações e a divulgação de vídeos nas redes sociais funcionam apenas como instrumentos de propaganda política, sem oferecer soluções reais para os problemas de segurança.

“Ele prova que é um governador fraquíssimo, um dos mais fracos da história do Rio de Janeiro. O negócio do ‘Soma ou Suma’ é só mais um vídeo para as redes sociais, não tem absolutamente nenhum resultado concreto para a população”, disse Cecilia.

As críticas ecoam entre especialistas em segurança pública que há anos alertam para os limites das operações de grande porte nas comunidades fluminenses. Dados do próprio Instituto Fogo Cruzado mostram que, mesmo após sucessivas ações, a presença armada e o controle territorial por facções e milícias seguem crescendo em várias regiões da capital, especialmente na Zona Oeste, que vive situação de conflito desde 2020.

O Fogo Cruzado é uma plataforma digital e um instituto que produz dados, pesquisas e conteúdos sobre a violência armada no Brasil.

Com informações do UOL.

Maicon Schlosser

Jornalista

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