O calendário, em seu giro inclemente, nos traz a marca dos 400 anos das Missões Jesuíticas, mas a data vem envolta em um paradoxo de brilho e dor.
O clamor do Rio Uruguai não é o único a ressoar; junta-se a ele o som, quase obsceno, das verbas despejadas em nome da “comemoração”.
Assistimos à insólita cena: enquanto o Brasil e a América Platina debatem-se na escassez de recursos vitais para saúde, educação e infraestrutura, eis que se abre uma verdadeira torneira de dinheiro sobre as ruínas, os projetos de luzes e a pompa dos eventos.
É a gastança desenfreada, um luxo histórico que se permite maquiar a tragédia com o fausto de um aniversário.
Mas o mármore polido e a chuva de verbas não podem comprar o silêncio.
A verdadeira dívida que temos com este tempo não é contábil; é moral.
O custo da aculturação, o peso da submissão imposta e o preço do etnocídio não se pagam com cerimônias grandiosas.
O dinheiro gasto hoje é apenas uma cortina de fumaça que tenta disfarçar a tragédia da fé usada como chicote.
A história que precisa ser recontada, e que o dinheiro jamais poderá apagar, é a do indígena que teve seu mundo desmantelado, sua espiritualidade profanada e sua liberdade aprisionada em nome de uma salvação europeia.
Não há evento, simpósio ou verba de incentivo que substitua o que é urgente, o que é digno.
O verdadeiro investimento, a única ação que pode inaugurar uma era de reparação histórica após quatro séculos de silêncio complacente, não é a gastança em comemorações.
É a humildade, a descida do pedestal da história e o ato solene de pedir perdão.
Que o dinheiro pare de chover sobre a pedra fria.
O único projeto de reparação que o Rio Uruguai espera é o reconhecimento honesto e o pedido de desculpas aos povos originários pela violência da cruz e da colonização.
Esta, sim, é a moeda da justiça que nos falta pagar.



