Recentemente, fui surpreendido ao saber que uma crônica escrita aqui no Fronteira 360, chamada “São Borja, a cidade do futuro”, havia sido incluída em um requerimento de um vereador da oposição, que pedia que ela fosse registrada nos anais da Câmara Municipal como uma representação do atual momento administrativo e político de São Borja.
No entanto, ela foi rejeitada por 8 votos a 5, de forma que fiquei de fora dos “anais”.
Eu já esperava que a crônica não fosse aprovada, mas confesso que a discussão em torno do requerimento me rendeu ontem boas risadas com algumas argumentações que foram usadas na tribuna. E, convenhamos, há algo de poético em ver uma crônica ser considerada “inadequada para os anais da Casa”.
Mas como o Fronteira 360 é fruto de pura teimosia e não desiste nunca, além de acreditar no poder da palavra, da ironia e da liberdade, decidi atender ao gosto da maioria e escrever uma nova crônica.
Esta, sim, acredito que será digna de entrar para os anais da Câmara:
SÃO BORJA, MODELO UNIVERSAL DE EXCELÊNCIA ADMINISTRATIVA
São Borja é um exemplo de gestão e harmonia. Uma cidade tão perfeita que, sinceramente, é até injusto chamá-la de “cidade”. Deveria ser chamada de modelo universal de excelência administrativa.
O prefeito é um verdadeiro estadista. Um gestor tão eficiente que até as flores do jardim da Prefeitura desabrocham em ritmo administrativo. A praça em frente a sede administrativa, ou melhor, o palácio do desenvolvimento, está sempre impecável, limpa, lá o ar parece mais puro, e o vento sopra em tom de aprovação.
As ruas? Um primor. Lisas, bem cuidadas, sem buracos, sem remendos. Quem fala o contrário precisa urgentemente de óculos. A pavimentação é tão perfeita que motoristas de outras cidades vêm só para passear e sentir a maciez do asfalto sob os pneus. É até perigoso andar distraído: o asfalto é tão liso que dá vontade de deitar e tirar um cochilo.
As estradas do interior, então, são um espetáculo. São as mais belas, planas e seguras já vistas. Nenhum buraco, nenhum atoleiro, nenhum desvio, apenas um convite à contemplação e ao orgulho. Os produtores rurais trafegam sorrindo, com lágrimas nos olhos, emocionados com a eficiência do poder público.
E se falamos de cultura, São Borja brilha ainda mais. Os museus dos presidentes Getúlio Vargas e João Goulart são verdadeiras relíquias arquitetônicas. Nenhuma infiltração, nenhum piso solto, nenhuma rachadura. As portas abrem com suavidade, sem o menor risco de desabar, ao contrário do que dizem os boatos maldosos.
São museus lindos, organizados e reluzentes, dignos de receber visitas de reis e rainhas. Quem disser que há problemas estruturais está espalhando ficção científica.
O cemitério municipal é outro orgulho: limpo, seguro e florido. Nenhum caso de vandalismo. As flores permanecem eternamente vivas, e até os anjos comentam sobre o bom gosto da administração.
A saúde pública funciona com precisão suíça. Não existe espera, nem reclamação. Quem diz que ficou quatro horas esperando atendimento está mentindo descaradamente. Alguns até reclamam de serem atendidos rápido demais.
Aqui, o paciente é recebido com tapete vermelho e, em alguns casos, com café e bolacha. E o que dizer dos exames? Estes são realizados com uma rapidez que deixaria Ayrton Sena com inveja. Aqui não há filas intermináveis e se alguém disser o contrário, certamente é calúnia.
Dentro das repartições públicas tudo funciona as mil maravilhas e as licitações são avaliadas com o olho clínico de quem nunca se envolveu em nenhum escândalo, especialmente no que diz respeito a episódios de rachadinhas.
As escolas municipais são verdadeiras obras de arte. Estruturas impecáveis, carteiras novas, quadros limpos, sem uma única goteira. Jamais se ouviu falar de criança vendendo rifa para ajudar na compra de materiais básicos e reparos estruturais, isso é invenção de quem não suporta ver São Borja brilhar.
Os servidores públicos vivem em estado de plenitude. Recebem salários justos, planos de carreira exemplares e elogios diários. Trabalham com alegria, gratidão e, dizem, até cantam enquanto batem o ponto. Nenhum deles tem qualquer motivo para reclamar e, se alguém disser o contrário, é pura inveja.
E, claro, jamais existiu um ônibus da Prefeitura circulando sem para-brisa, levando funcionários no relento do inverno. Isso é lenda urbana. Em São Borja, os veículos públicos são climatizados, silenciosos e, em alguns casos, com serviço de bordo e cortesia de balinha de hortelã.
Em resumo: São Borja é perfeita, linda, cheirosa, invejada e, acima de tudo, imune a críticas. Aqui, nada dá errado, porque nada pode dar errado.
Talvez agora, sim, essa crônica entre para os anais da Casa.
Afinal, quando se escreve sobre a perfeição, ninguém pode se sentir ofendido, nem mesmo os perfeitos.
EPÍLOGO
Agora, falando sério: toda vez que o Fronteira 360 se pronuncia e aponta algum problema na cidade, está apenas cumprindo o papel mais elementar do jornalismo, o de lançar luz sobre o que está errado para que o poder público possa agir e melhorar.
Crítica não é oposição, é compromisso com a verdade e com a esperança de que São Borja possa ser, um dia, tão perfeita quanto na crônica ou na imaginação de alguns que apoiam a atual gestão.
Quanto a reprovação do requerimento, agradeço a lembrança, inclusive dos que votaram contra, pois, afinal, quer dizer que leram. Pelo menos é o que espero. E no fim, para quem escreve, é isso que importa: ser lido, debatido e lembrado, mesmo que momentaneamente, pois afinal, o momento é tudo que existe e todo o resto um dia vai se perder na eternidade.
Todo o resto é vaidade e orgulho vazio.



