Poucos perceberam, mas o país está diante de uma tentativa silenciosa de enfraquecer uma das instituições mais essenciais da República: a Polícia Federal.
Sob o pretexto de “organizar competências” no combate ao crime, o relatório do deputado e secretário de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite (PP-SP), sobre o Projeto de Lei Antifacção incluiu dispositivos que, na prática, limitam a autonomia da PF para agir contra organizações criminosas, justamente num momento em que o Brasil enfrenta o avanço sem precedentes das facções, do tráfico e da corrupção sistêmica.
Na versão original do parecer, caberia às polícias civis estaduais investigar crimes relacionados ao terrorismo e às facções, enquanto a PF só poderia atuar se fosse provocada pelos governadores ou pelo Ministério da Justiça.
Uma inversão perigosa: a corporação que desmantela esquemas de corrupção bilionários e enfrenta o crime organizado transnacional teria de pedir permissão para agir.
Após a repercussão negativa, Derrite recuou parcialmente. Na nova redação, a PF poderia abrir investigações por iniciativa própria, mas teria de comunicar previamente as autoridades estaduais.
Um detalhe que parece burocrático, mas que, segundo fontes da própria corporação, abre brechas para vazamentos e interferências políticas.
Em nota contundente, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, afirmou que “não há e não haverá acordo que implique em supressão das atribuições e autonomia da PF”.
O comunicado da instituição foi ainda mais direto: as alterações discutidas no Congresso “comprometem o interesse público” e representam “um retrocesso no enfrentamento às organizações criminosas”.
E o alerta não é retórico. A PF lembra que, em agosto, realizou a maior operação da história contra o crime organizado no país — uma ação que, sob as novas regras, poderia sequer ter acontecido. O risco é claro: enfraquecer a Polícia Federal interessa apenas a quem teme ser investigado.
É quase uma nova versão da PEC da Blindagem, agora voltada à PF, numa tentativa disfarçada de subordinar a instituição que mais incomoda os poderosos.
Num momento em que o Brasil precisa fortalecer o combate à criminalidade, discutir a limitação da Polícia Federal é um contrassenso. O país deve se perguntar: quem ganha com isso? Certamente, não é a sociedade brasileira e muito menos a justiça.



