A polêmica sobre a possível transferência de alunos da Escola Municipal de Ensino Fundamental Olinto Dornelles para escolas da zona urbana gerou um efeito cascata na sessão da Câmara desta segunda-feira (17), revelando informações desencontradas dentro da Prefeitura, versões conflitantes entre vereadores da base e críticas contundentes da oposição.
O caso veio à tona após pais e mães relatarem ao Fronteira 360 que haviam sido informados de que seus filhos seriam transferidos, supostamente por decisão da Secretaria Municipal de Educação, sem diálogo prévio. A repercussão levou o prefeito José Luiz “Boca” (PP) a marcar uma reunião emergencial com as famílias nesta semana.
Cardial diz que prefeito desconhecia decisão e garante permanência dos alunos
No plenário, o vereador Cardial (PP) afirmou ter conversado diretamente com o prefeito, que segundo ele negou qualquer intenção de transferir os estudantes:
“Isso não vai acontecer. Vai continuar como era antes. Vão continuar pegando e levando para a Escola Olinto Dornelles.”
Cardial apresentou ainda um memorando datado de 5 de novembro, assinado pela secretária de Educação, Lourdes Balbueno, solicitando que 11 alunos não fossem matriculados na escola do interior.
Ele afirmou que o documento só chegou ao gabinete do prefeito nesta segunda-feira, quase duas semanas após sua emissão:
“Conversei com o chefe de gabinete, o Cristiano, e ele recebeu hoje. (…) Isso aqui não chegou para o prefeito. Chegou hoje à tarde.”
Segundo Cardial, o prefeito sequer sabia da existência do memorando quando foi questionado por ele:
“Ele nem sabia desse memorando. Por isso que está dando toda essa discussão aqui.”
Pais afirmam que foram avisados pela direção da escola
Apesar do relato de desconhecimento por parte do Executivo, pais e mães afirmaram à reportagem que foram orientados pela própria direção da Olinto Dornelles sobre a transferência de seus filhos e que a justificativa apresentada teria partido da Secretaria de Educação.
Cardial questionou por que o documento não havia sido repassado ao prefeito ainda no dia 5 de novembro, quando foi emitido:
“Por que a secretária não conversou com o prefeito para evitar esse transtorno todo?”
Renê Ribeiro fala em “ilhas de comando” dentro da Prefeitura
O vereador Renê Ribeiro (PT) reforçou as críticas, afirmando que o memorando lido por Cardial comprova que a Secretaria, de fato, determinou que os alunos não fossem matriculados na Olinto Dornelles:
“Aquilo que a gente veio falar tem uma assinatura da Secretaria.”
Para ele, o desconhecimento declarado pelo prefeito e pelo chefe de gabinete revela desorganização interna:
“Parece que tem ilhas de comando dentro da prefeitura. Não dá pra ser assim.”
Renê disse ainda que os pais buscaram socorro na oposição “desesperados”, e alertou:
“Se o prefeito não se organizar, o que está ruim vai ficar muito pior.”
Reolon contradiz Cardial e afirma que pedido partiu do próprio prefeito
A confusão se ampliou quando o presidente da Câmara, João Carlos Reolon (PP), apresentou uma versão diametralmente oposta à de Cardial. Segundo ele, o ofício assinado pela secretária Lourdes atendeu a um pedido do prefeito, que pretendia transferir os alunos que moram entre a ponte do Arroio Santa Luzia e a zona urbana.
“De fato, houve o interesse do prefeito em fazer com que aqueles alunos (…) se matriculem na zona urbana.”
Reolon justificou a medida com argumentos de logística:
“Tem uma certa lógica ao pedido, para evitar uma demanda de tempo ainda maior no transporte escolar.”
As versões conflitantes geraram dúvidas e um questionamento direto do vereador Eduardo Rocha (PSDB):
O prefeito sabia ou não sabia?
Reolon afirmou:
“Ele entendeu que estavam dizendo que ele queria fechar a escola, e reagiu com veemência. Mas ele não fecharia. Ele apenas traria esses 11 alunos por entender que seria melhor logisticamente.”
Reolon confirmou que, após a reação da comunidade, o prefeito decidiu ir pessoalmente ao interior na quarta-feira para decidir o futuro da medida.
Cassafuz: “A gestão está perdida”
A divergência entre os dois vereadores da base provocou reação imediata da oposição.
Valério Cassafuz (PDT) afirmou que as versões apresentadas são incompatíveis:
“Um vereador da base diz que o prefeito não sabia. Outro diz que sabia e que era vontade dele. A gente realmente não consegue entender.”
Cassafuz disse que o prefeito já demonstrava conhecimento do caso nas redes sociais, ao marcar reunião com a comunidade, e criticou o que chamou de falta de comando:
“O prefeito, a gestão, está perdida.”
Ele também levantou suspeitas sobre interferência de um técnico da Secretaria de Educação:
“Dizem alguns servidores que existe um contratado que está tomando essas decisões e colocando o prefeito e a secretária no fogo.”
Cassafuz ainda contestou a justificativa de economia no transporte:
“Na visão de vocês é plausível, na nossa não. Economia a gente faz em outras coisas… talvez no evento, talvez nos cinco milhões da empresa contratada para aumentar o IPTU.”
Reunião nesta semana deve esclarecer o imbróglio
Diante de informações conflitantes, documentos divulgados parcialmente, justificativas divergentes e declarações contraditórias dentro da própria base aliada, a comunidade espera que a reunião marcada para esta semana traga uma definição clara.
Até o momento, a única certeza é que a comunicação interna da Prefeitura falhou e o caso expôs publicamente um racha na condução da política educacional do município.



