Para os bolsonaristas, Alexandre de Moraes é aquele personagem sombrio que vive escondido atrás das togas, pronto para esmagar liberdades e perseguir patriotas. Pelo menos é assim que o ministro do STF costuma ser retratado nos grupos de WhatsApp. A realidade, no entanto, teima em ser menos teatral e, neste sábado (22), “Xandão” voltou a contrariar a própria caricatura.
Ao mandar prender Jair Bolsonaro preventivamente no âmbito do inquérito do golpe, Moraes escreveu uma decisão de apenas duas páginas, muito didática e quase gentil.
Determinou que a PF cumprisse o mandado “com todo o respeito à dignidade do ex-presidente”, proibiu o uso de algemas e vetou qualquer tipo de exposição midiática. Nem exigiu uniforme dos agentes, deixou ao critério deles.
Se existe um modo mais brando de prender alguém condenado por tentar subverter a democracia, ainda está para ser inventado.
E não parou aí. A defesa de Bolsonaro pediu prisão domiciliar humanitária, alegando motivos de saúde. Moraes poderia ter simplesmente negado. Mas, num gesto burocraticamente elegante, preferiu considerar o pedido “prejudicado”, como quem fecha uma porta, mas sem bater.
A recepção do ex-presidente também não foi das piores. A Sala de Estado-Maior preparada para Jair Messias Bolsonaro foi recém-reformada pela Polícia Federal: 12 metros quadrados, banheiro privativo, escrivaninha, ar-condicionado e frigobar. Nada mal para quem, segundo seus aliados, estaria sendo “perseguido por um ditador”.
No fim, por ironia do destino, o homem acusado de ser o maior inimigo dos bolsonaristas foi justamente quem garantiu que o líder deles fosse preso “com dignidade”. E a história, mais uma vez, resolveu ser melhor cronista que qualquer um de nós.



