Mensagens obtidas por uma reportagem do UOL revelam que o empresário Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como “Beto Louco”, que está foragido da Justiça e é investigado em operações da Polícia Federal que apuram fraudes em combustíveis, lavagem de dinheiro e possível ligação com o PCC, providenciou canetas de Mounjaro para o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). O parlamentar não se manifestou.
As conversas ocorreram em agosto de 2024, quando o Mounjaro ainda não tinha liberação da Anvisa, o que fazia com que o medicamento circulasse por canais paralelos, com custo aproximado de R$ 15 mil por mês.
De acordo com mensagens reveladas, a entrega foi organizada por Beto Louco e executada por um motorista ligado ao gabinete de Alcolumbre.
A aproximação entre os dois ocorreu um dia antes da troca de mensagens, durante um almoço em Brasília promovido por Antonio Rueda, presidente do União Brasil. O encontro é mencionado nas investigações como o momento em que Alcolumbre teria comentado a dificuldade de obter o medicamento, levando o empresário a oferecer acesso por meio de uma fornecedora que viajava com frequência a Dubai.
O motorista acionado para a entrega demonstrou familiaridade com o destinatário ao perguntar: “É para o Davi?”. A confirmação da entrega foi repassada mais tarde por Janduí Nunes Bezerra Filho, então motorista do senador e atualmente auxiliar parlamentar sênior, com salário bruto de R$ 14,5 mil.
Implicações do caso
A revelação traz repercussões políticas e institucionais relevantes, começando pela relação sensível entre o presidente do Senado e um empresário investigado pela Polícia Federal. Receber um item de alto valor de um foragido acusado de fraudes, lavagem de dinheiro e com suspeita de ligação ao PCC expõe um risco político evidente e levanta questionamentos sobre a natureza dessa aproximação.
Soma-se a isso o fato de que o Mounjaro não tinha aprovação da Anvisa na época, o que significa que sua obtenção por vias informais pode caracterizar irregularidades sanitárias e até responsabilidade administrativa.
Além disso, a proximidade com um investigado em esquemas de combustíveis e lavagem de dinheiro abre espaço para que autoridades avaliem um possível conflito de interesses, incluindo a hipótese de tráfico de influência ou de benefícios indiretos decorrentes dessa relação.
Até o momento, Alcolumbre não explicou por que recebeu um medicamento trazido do exterior por canais paralelos, tampouco comentou sua relação com Beto Louco. A Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República podem ser acionadas para avaliar eventuais desdobramentos legais.
O caso adiciona uma nova camada de pressão sobre o presidente do Senado, conectando-o a um empresário foragido, a um medicamento de circulação restrita à época e a um ambiente institucional que exige explicações públicas.



