Secretário de Estado americano recua na forma, mas ofensiva dos EUA mantém foco no petróleo venezuelano

Ao tentar conter a leitura de que os Estados Unidos passariam a exercer controle direto sobre a Venezuela após a captura de Nicolás Maduro, o secretário de Estado Marco Rubio recuou no discurso neste domingo (4). A correção de rota, porém, não altera o núcleo da estratégia anunciada por Donald Trump: o cerco ao petróleo venezuelano segue intacto e funciona como o verdadeiro eixo da intervenção.

Em entrevista ao programa Face the Nation, da CBS, Rubio afirmou que Washington não pretende assumir o “governo cotidiano” da Venezuela e que a atuação dos EUA se limitará à manutenção da chamada “quarentena do petróleo”, já em vigor antes da prisão de Maduro. “É esse o tipo de controle a que o presidente se refere quando diz isso”, declarou, ao tentar enquadrar as falas mais explícitas de Donald Trump.

Em outra entrevista, desta vez à ABC News, Rubio foi mais explícito sobre o alcance dessa atuação. “O que estamos administrando é a direção para a qual isso vai caminhar daqui para frente”, afirmou. “Temos instrumentos de pressão, e é isso que estamos usando.”

Esses instrumentos incluem o bloqueio de navios-tanque de petróleo, que atinge diretamente a principal fonte de receita da Venezuela, e a manutenção de uma expressiva presença militar americana no entorno do país.

Segundo fontes da administração, as sanções ao setor petrolífero permanecerão em vigor por tempo indeterminado, funcionando como mecanismo permanente de coerção sobre qualquer governo que assuma em Caracas.

A declaração vem no mesmo dia em que as Forças Armadas da Venezuela reconheceram a vice-presidente Delcy Rodríguez como presidente interina por 90 dias, em decisão amparada pelo Tribunal Supremo de Justiça.

O gesto buscou preservar uma aparência de continuidade institucional diante do vácuo de poder provocado pela operação americana, cenário que facilita, do ponto de vista de Washington, a pressão econômica sem a necessidade de administração formal do Estado.

A centralidade do petróleo tampouco é acidental. Fora da Presidência, em 2023, Trump já havia deixado claro qual seria o verdadeiro prêmio de uma intervenção. “Nós teríamos ficado com todo aquele petróleo”, afirmou durante discurso na Convenção Republicana da Carolina do Norte. “Estaria logo ao nosso lado.”

Após a captura de Maduro, o presidente voltou a ser direto. “Vamos tirar uma quantidade tremenda de riqueza do chão”, disse a repórteres, neste sábado (3), prometendo ampliar o acesso de empresas americanas às reservas venezuelanas. Trump afirmou ainda que parte dos recursos serviria como “reembolso pelos danos causados aos Estados Unidos”, reforçando a lógica de apropriação econômica como justificativa política da ação.

Ao comentar a ofensiva militar, Trump também quase não mencionou a “guerra às drogas”, argumento que por meses sustentou o reforço militar e operações navais que resultaram em ao menos 116 mortes. Em seu lugar, o petróleo apareceu mais de uma dúzia de vezes, mesmo quando as perguntas não se referiam ao tema

A queda de Maduro, nesse contexto, representa uma vitória política dupla para Trump. No plano simbólico, ele se consolida como o líder que derrubou um ditador, discurso que ressoa junto à sua base eleitoral. No plano estratégico, assegura aos Estados Unidos uma posição privilegiada sobre o maior estoque de petróleo do planeta, em um cenário de crescente disputa global por energia.

O custo dessa estratégia, porém, preocupa governos da América Latina. A operação americana, amplamente questionada sob a ótica do direito internacional, sinaliza que Washington está disposto a violar normas e tratados sempre que considerar que os benefícios políticos e econômicos superam os riscos diplomáticos.

As declarações de Trump reforçam essa percepção: a legalidade surge como variável secundária quando confrontada com os interesses estratégicos dos Estados Unidos.

Nesse contexto, a divergência entre Trump e Rubio é mais aparente do que real. O presidente vocaliza o objetivo final; o secretário descreve o método. Ambos convergem na essência: a Venezuela não será “governada” pelos Estados Unidos no papel, mas será conduzida, sob pressão militar e econômica, na direção que Washington determinar.

Maicon Schlosser

Jornalista

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