Valquíria* nasceu em Caracas, no coração da capital da Venezuela, onde passou a infância em uma região central, cercada de serviços, escolas e comércio. “Apesar de ser o centro, era um lugar tranquilo. Tudo era perto. Minhas melhores lembranças de criança são dali”, recorda. Ela jamais imaginou que um dia deixaria o próprio país. Trabalhava no serviço postal, tinha casa, carro e uma vida estruturada, que lhe permitiu estudar e obter formação para atuar em escolas.
Mas tudo começou a ruir a partir de 2016 e 2017. A hiperinflação tornou inviável manter qualquer padrão mínimo de vida. “A comida, o aluguel, tudo ficou impossível de pagar”, relata. Produtos básicos, como alimentos, shampoo e absorventes, mudavam de preço ao longo do mesmo dia. “Você ia ao mercado de manhã e à tarde já estava mais caro. Era assim o tempo todo.”
Antes disso, Valquíria já havia sentido o que viria pela frente. Quando Hugo Chávez venceu as eleições em 1999, ela descreve uma sensação física de medo.
“Foi como levar um balde de água gelada no corpo. Eu sentia que algo muito ruim estava começando”, descreve. Ainda assim, ela construiu sua carreira, comprou casa e carro. Mas o colapso econômico que se intensificou com Maduro acabou com qualquer chance de se manter no país. Num espaço curto de tempo, Valquiria viu tudo o que construiu durante a vida ruir.
Precisou vender o veículo pois já não conseguia mantê-lo, depois, vendeu a casa para tentar comprar outra, mas, em poucas horas, o dinheiro já não valia o mesmo. “Vendi minha casa para comprar outra, mas como os preços subiam todo dia, o negócio desandou e fiquei sem nada”, lamenta.
Do exílio no Peru à fuga da Argentina
A primeira saída foi para o Peru, onde viveu cinco anos como refugiada. Depois, seguiu para a Argentina, onde ficou apenas três meses. “Na Argentina a situação começou a se complicar também, como na Venezuela, com a diferença de que na Venezuela os preços subiam no mesmo dia. Na Argentina os preços subiam toda semana. Chegou um momento em que não dava mais para se sustentar, para pagar aluguel ou comida. Então decidimos sair de lá.”
Em 2023, vivendo em Posadas, na província de Corrientes, Valquíria e o então companheiro decidiram tentar a vida no Uruguai. Sem dinheiro para ônibus, começaram a caminhar.
Ela, o ex-companheiro, um primo dele e duas crianças seguiram a pé por quilômetros. No caminho, receberam ajuda de desconhecidos. Um homem lhes deu cerca de 15 mil pesos argentinos, o que permitiu que comprassem duas passagens de ônibus até Santo Tomé. Dali, ingressaram no Brasil e chegaram a São Borja.
“Minha intenção era chegar ao Uruguai, mas os meninos estavam exaustos. Eu já tinha caído várias vezes na estrada. Não aguentávamos mais.”
A chegada a São Borja
Sem forças para continuar, o grupo entrou no Brasil por São Borja, na madrugada de 26 de novembro de 2023. “Entramos pelo posto à meia-noite. Não conhecíamos ninguém. Tivemos que viver na rua por duas semanas.”
Mesmo assim, ali encontraram algo que não viam há muito tempo: acolhimento institucional. “Aqui nos deram a documentação mais rápido, pelo menos o CPF. Também fizemos o cartão provisório de refugiado.” O pedido de refúgio foi feito porque o então companheiro de Valquíria era militar na Venezuela.
“Eles o obrigavam a atirar nas pessoas que protestavam. Ameaçavam que, se ele não matasse, se não disparasse, seria preso. Então ele teve que fugir. Desertou.”
Após duas semanas vivendo nas ruas, um morador da região ofereceu um pequeno galpão, usado antes para animais. Ali puderam recomeçar. O ex-companheiro e o primo passaram a trabalhar com reciclagem. Valquíria, por sua vez, fez faxinas e trabalhos esporádicos até conseguir um emprego melhor, dentro de sua formação.
“Aqui fui muito bem acolhida. Quando as pessoas viram que estávamos com crianças, começaram a trazer comida, leite, cobertores, roupas de cama. Fiz amigas de verdade, que me ajudaram muito, inclusive depois da minha separação.”
Ela compara São Borja à sua vida anterior em Caracas: “Aqui é uma cidade pequena, tranquila. Posso andar com o celular na rua sem medo. Posso comprar comida sem fazer fila, sem madrugar. Tenho documentos, posso alugar uma casa, posso planejar.”
Chávez, Maduro e o colapso
Valquíria faz uma distinção entre Chávez e Maduro. “Chávez soube fazer bem o trabalho no sentido de controlar tudo: mídia, militares e economia”, afirma. Para comprar dólares, era necessário ter conta bancária, crédito, autorização. Muitos passaram a lucrar revendendo cotas oficiais: “Muita gente também foi responsável por isso.”
Com Maduro, diz ela, o que já era ruim virou caos. “Quando Chávez ganhou, foi como um balde de água fria e quando Maduro venceu, eu não fui trabalhar. Entrei em depressão naquele dia. Eu vi esse homem em 2002 atirando contra pessoas. Vi morrerem fotógrafos, gente inocente. Como elegem um homem como este para um cargo tão importante como o de presidente?”, questiona.
Na última eleição, ela afirma que em seu centro de votação venceu o opositor Capriles, mas o resultado oficial foi revertido. “Foi fraude. Como agora, em 2024. Horrível.”
A queda de Maduro e o medo que permanece
A notícia da captura de Nicolás Maduro, no entanto, não trouxe alívio imediato. Num primeiro instante, Valquíria sequer conseguiu acreditar nas informações. Mas hoje, passado o fervor do momento, ela tem uma visão mais realista.
“Enquanto os chefes militares e Diosdado Cabello (Ministro do Interior, Justiça e Paz e considerado o “número dois” do regime) continuarem lá, nada muda. Cabello é praticamente dono de metade da Venezuela. A situação continua tensa. Só quando todos saírem é que a liberdade vai existir de verdade.”
O temor é compartilhado por sua família, que permanece no país. “Minha família que ficou na Venezuela está muito tensa, muito preocupada. Principalmente porque os preços da comida subiram de novo.” Segundo ela, em momentos de crise política, comerciantes aumentam imediatamente os valores. “Agora, mais do que nunca, eu preciso ajudá-los.”
Ela explica que os parentes evitam falar, inclusive nas redes sociais. “Meu filho não pode dizer nada. Eles monitoram tudo.”
Por isso, Valquíria não aceita mostrar o rosto ou usar seu nome verdadeiro na reportagem. “Tenho família lá. Não quero fotos. Dou minha opinião, mas preciso protegê-los”, afirma.
“Um país sequestrado por criminosos”
Questionada sobre o papel dos Estados Unidos no controle político da Venezuela, Valquíria usa uma metáfora direta:
“Se seu país está sequestrado por criminosos, o que você prefere? Que mandem os criminosos ou que venha a polícia? Eles não são santos, têm interesses, mas entre os males, é o menor. A população civil está indefesa e sequestrada. Eles vêm nos salvar. E quem salva, cobra.”
Ela lembra que, após as eleições de julho de 2024, quando protestos começaram, o regime respondeu com tanques e grupos armados: “São psicopatas, não têm escrúpulos para matar”. Naquela ocasião, um relatório pela ONG de Direitos Humanos Provea mostrou que pelo menos 24 pessoas foram mortas na Venezuela durante os protestos. Além disso, centenas de pessoas foram detidas e presas.
Por que não pode voltar e a esperança de dias melhores
Aos 50 anos, Valquíria sabe que retornar agora seria arriscado. “Quem está fora é considerado traidor da pátria. Há postos de controle por toda parte. Se eu voltar, não vou conseguir emprego.” Ela prefere permanecer no Brasil, estudar, trabalhar e ajudar a família à distância.
Apesar de tudo, ainda acredita na reconstrução do país. “Eu tenho fé. A esperança não pode morrer. Mas temos que entender que, se eles ficaram 26 anos no poder, também vai levar tempo para removê-los completamente. Se saírem sem violência, talvez seja possível curar o país. Mas será preciso uma limpeza política, social e até espiritual. Só o tempo vai dizer.”
*Nome fictício para proteger a fonte.



