Ex-servidoras levaram o caso ao Ministério Público do Trabalho e ao Ministério Público do Estado; secretária nega irregularidades e afirma que pasta ainda constrói diretrizes
Ex-servidoras da Secretaria da Mulher do Rio Grande do Sul denunciaram a titular da pasta, Fábia Richter, ao Ministério Público do Trabalho e ao Ministério Público do Estado por supostas práticas religiosas durante o expediente e pela adoção de procedimentos sem embasamento científico no atendimento a mulheres vítimas de violência.
As denunciantes relatam constrangimento no ambiente de trabalho e riscos na execução das atividades. A secretária nega irregularidades e sustenta que os atos foram pontuais e opcionais.
A Secretaria da Mulher foi recriada em 2025, após uma série de feminicídios que intensificou a pressão por políticas públicas de proteção às mulheres no estado. Fábia Richter assumiu o comando da pasta em outubro do mesmo ano e afirma que o órgão ainda passa por um processo de estruturação.
Segundo as ex-servidoras, que preferem não se identificar, houve participação obrigatória em momentos de oração durante reuniões internas, além de dinâmicas com conteúdo religioso. Elas afirmam que tais práticas desrespeitam a laicidade do Estado e a diversidade religiosa, além de afetarem a ética profissional no atendimento às vítimas. Um vídeo enviado à reportagem do Sul 21 mostra uma dinâmica conduzida pela secretária com referências explícitas à fé cristã.
Em entrevista, Fábia Richter declarou que é cristã e que a oração faz parte de sua vida pessoal, mas que, como gestora, apenas convidou os servidores a participar em momentos específicos, sem imposição. A secretária afirmou ainda que visita diferentes espaços religiosos como estratégia de aproximação com a sociedade e de fortalecimento da rede de proteção.
Outro ponto central da denúncia envolve a criação de um mapeamento do perfil de agressores, que, segundo as ex-servidoras, estaria sendo realizado sem respaldo científico e antes de condenações judiciais. Elas relatam que eram orientadas a contatar familiares, redes comunitárias e até gestores municipais para levantar informações sobre os homens denunciados, o que teria gerado sensação de insegurança.
Fábia sustenta que o objetivo é compreender falhas na rede de proteção e prevenir novos casos de violência, citando estudos acadêmicos e parcerias em construção com universidades.
As denunciantes também manifestaram preocupação com a ampliação do atendimento 24 horas do canal Escuta Lilás. Segundo elas, o serviço fora do horário comercial estaria sendo operado por pessoas sem qualificação técnica adequada. A secretária afirma que o modelo atual é temporário, que profissionais ficam de sobreaviso e que está em andamento a licitação de um call center especializado.
O ministério Público do Trabalho confirmou o recebimento das denúncias e informou que as investigações estão em fase inicial, sem divulgação de detalhes. As ex-servidoras foram realocadas para outra pasta e afirmam que o desligamento funcionou como um recado interno para a equipe. Elas também mencionam que a secretária teria planos de deixar o cargo em 2026 para disputar uma vaga na Assembleia Legislativa, o que teria intensificado a pressão por resultados em curto prazo.
Fonte: Sul21 | Foto: Maurício Tonetto / Secom RS



