“É cruel o que fizeram com ele. Foi desumano”: a dor de uma família à procura de respostas

“A hora que eu entrei para ver ele o corpo já estava gelado. O rosto dele completamente roxo. A cabeça estava muito inchada, ele tava com a boca entreaberta, cheia de sangue e no nariz tinha terra. Um monte de terra dentro das narinas dele. Ele estava sem camisa e no corpo dele tinha um hematoma, como se tivesse tomado alguma pancada forte. É cruel o que fizeram com ele, foi desumano”

O relato é de de Ana Karina de Jesus Monjeló, irmã de Guilherme Moisés Oliveira de Jesus, de 24 anos, morto após uma ação policial em Uruguaiana, na noite de sexta-feira (16). A família contesta a versão apresentada inicialmente pela Brigada Militar, de que o jovem teria passado mal, e afirma que ele foi agredido até a morte dentro de casa.

Segundo a irmã, Guilherme morava com a mãe havia poucos meses. Seu último emprego havia sido de segurança e atualmente estava desempregado, mas buscava trabalho ativamente. Nos dias anteriores à morte, limpava o pátio da residência e perguntava a conhecidos e vizinhos sobre oportunidades, inclusive para serviços temporários.

“Tanto que na noite que mataram ele, quando nós chegamos na firma onde meu tio também trabalha como guarda, um dos funcionários afirmou: ‘Não faz muito que ele me chamou perguntando se não tinha emprego aqui. Não acredito que o Guilherme morreu’, e ele me mostrou as mensagens”, diz a Ana Karina.

Na véspera da morte, Guilherme esteve com a irmã. Jantaram juntos. Ela o convidou para dormir em sua casa, mas ele preferiu voltar. “Eu disse para ele ficar, para não ficar sozinho, mas ele falou que gostava de ficar um pouco sozinho e que ia continuar limpando o pátio no dia seguinte”, relatou.

Na noite da ocorrência, Guilherme enviou aquela que seria sua última mensagem à irmã por volta das 19h10. Sua última pergunta: se a mãe estava em casa. A mãe havia ido ajudar a filha, que tem um bebê de dois meses. A resposta foi enviada mais tarde, por volta das oito horas. Não houve retorno.

A ocorrência e a morte

Horas depois, vizinhos ligaram avisando que a polícia havia invadido a casa. A irmã e um tio foram imediatamente ao local. O portão estava arrebentado, a casa revirada, portas e janelas abertas. Não havia policiais nem Guilherme no interior da residência.

“Eu chamei ele, gritei, mas não tinha ninguém. A casa estava toda revirada. A corrente estava para dentro, com cadeado. A primeira coisa que pensei foi que tinham levado ele para a delegacia”, contou.

Ao se afastarem, a irmã viu uma viatura parada em frente à casa. Ao retornarem, o veículo saiu. O tio conseguiu abordar os policiais e se identificar como familiar. Segundo o relato, os agentes perguntaram se Guilherme tinha problemas no coração, se tomava medicamentos ou se sofria de alguma doença. A família respondeu que não.

“Eu perguntei o que tinha acontecido com ele. Eles disseram que ele tinha passado mal e que tinham levado ele para o pronto-socorro”, afirmou.

No hospital, a informação foi diferente. Um funcionário informou que o homem levado pela polícia havia dado entrada já em óbito. A irmã pediu para vê-lo e foi abordada por uma enfermeira. “Ela pediu uma foto dele e eu mostrei. Ela me disse que sim, que era ele. Então eu perguntei: eles mataram o meu irmão? E ela confirmou com a cabeça e pediu para eu me acalmar e disse que o médico queria falar comigo”, relatou.

Ainda no hospital, ela fez a mesma pergunta ao médico, que a chamou para ver o corpo. “Ele disse assim: ‘passa ali, maninha, e vê o estado que deixaram ele’.”

Imagens do corpo enviadas pela família ao Fronteira 360 mostram múltiplos sinais de agressão: marcas nos punhos e braços, cortes nos pulsos, inchaço acentuado no rosto e na cabeça, além de áreas afundadas e cortes na boca.

Mesmo após procedimentos estéticos realizados antes do velório, as lesões permanecem visíveis. Em respeito a família e a dignidade humana, não iremos compartilhar as imagens, mas deixamos claro que os sinais de violência são evidentes e inegáveis.

A certidão de óbito aponta causa indeterminada, mas classifica a falecimento como “morte violenta”, tipificação médico-legal utilizada quando o óbito decorre de ação externa, e não natural. A perícia oficial do corpo, com as causas concretas da morte, será entregue a família e as autoridades no prazo de 15 dias.

A mãe de Guilherme, Sandra Oliveira, em entrevista à Rádio Líder FM, também contestou a versão policial. Segundo ela, o filho não possuía arma, não fazia uso de drogas e era alvo constante de abordagens da polícia por causa de uma tatuagem de palhaço ele teria feito com 14 anos, que seria associada a matadores de policiais no mundo do crime. “Mas ele fez isso quando era criança, nem sabia o que estava fazendo”

Numa dessas abordagens, os policiais teriam, segundo ela, quebrado o braço de Guilherme.

“Quebraram o braço dele e deixaram ele atirado na rua, e encheram ele ‘a pau’ e bala de borracha. Era todo o corpo do guri machucado”, relembrou a mãe.

Ela também sustenta que objetos teriam sido colocados na casa após a morte e tem como argumento o fato de que os policiais teriam voltado a casa diversas vezes após a abordagem inicial, informação também sustentada pela irmã. “Eles voltaram três ou quatro vezes durante a noite”, destaca Ana. Segundo a família, a chave da casa e o celular de Guilherme sumiram. Ana afirma que a mãe irá morar com ela e que não pretendem voltar a casa depois do ocorrido.

A irmã também informa que o irmão nunca respondeu por nenhum crime violento. “O meu irmão nunca matou, nunca roubou”, declara. Mesmo se tivesse com drogas e armas, diz a irmã, isso não seria motivo para ser espancado até a morte. A mãe, que morava com Guilherme, diz que ele não possuía arma e que se ele estivesse armado, teria sido alvejado pelos policiais.

Além disso, a irmã questiona a ausência de apreensão de dinheiro ou balança, em contraponto a apreensão de grande quantia de drogas, que podeira indicar a comercialização da mesma.

“Pela quantidade de droga que aprenderam, o meu irmão seria traficante, então teria que ter dinheiro ou talvez uma balança. Não foi aprendido nada disso”, explica. Ela também afirma que o irmão não dependente químico, não consumia remédios controlados e não tinha problemas de saude física ou mental.

Ainda segundo Ana, os policiais teriam oferecido duas versões diferentes à família num primeiro momento. A primeira delas era de que ele estaria em surto, ameaçando os policiais e também dizendo que iria atirar em si mesmo. Depois, foi dada a versão oficial, de que estava em fuga.

Na delegacia, segundo ela, houve uma grande movimentação de policiais e alguns teriam debochado dos familiares, após serem chamados de ‘bandido’ pelo tio da vítima. “Eles riam da nossa cara lá na frente”, afirma.

Segundo a família, vizinhos teriam relatado que ele estava em casa e que primeiramente um camburão teria parado no meio da quadra, momento em que dois policiais desceram a pé e invadiram a casa. “Depois vieram as viaturas da Choque”, afirma.

Ainda segundo Ana, os vizinhos teriam ouvido gritos por socorro vindos da casa durante o momento da abordagem.

Em meio a dor, a irmã e toda família ainda tentam buscar respostas para o que aconteceu e não acreditam que ele teria resistido. Em meio a ligação com Ana, a mãe, Sandra, acordou e enquanto a irmã falava com a nossa reportagem, foi possível ouvi-la dizendo ao fundo: “Tem fotos dos pulsos cortados, dos dedos quebrados e os hematomas na cabeça”.

A família garante que irá levar o caso até as últimas instâncias e busca entender o que poderia ter motivado tamanha violência.

“A gente quer saber por que fizeram isso, por qual motivo mataram ele dessa forma tão cruel”, afirma Ana, que relembra do irmão como um jovem gentil e que nunca faltou com o respeito com ninguém.

Até o momento da publicação dessa reportagem, apenas a mãe foi ouvida formalmente. A família está acompanhada por uma advogada e aguarda novos depoimentos e o laudo pericial.

Versão policial

Em nota, a Brigada Militar, por meio do 6º Batalhão de Polícia de Choque, informou que a ocorrência envolveu a abordagem de um indivíduo em atitude suspeita, que teria fugido dos policiais e resistido a abordagem. Também foi divulgada a apreensão de uma arma de fogo, munições e uma substância com características semelhantes à cocaína. A corporação afirmou ainda que o homem teria passado mal durante a ação e foi encaminhado ao atendimento médico, onde veio a óbito.

O caso foi registrado e encaminhado para investigação, com instauração de procedimento interno para apuração dos fatos.

Compromisso com a apuração

O Fronteira 360 seguirá acompanhando o caso e buscará ouvir Brigada Militar, o comando regional e demais autoridades de segurança pública, além da Polícia Civil, para ampliar o contraditório e esclarecer as circunstâncias da morte.

A reportagem reafirma o compromisso com uma cobertura responsável, humanizada e imparcial, respeitando a dor da família e o direito da sociedade à informação.

Maicon Schlosser

Jornalista

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