A revelação de diálogos reservados entre ministros do Supremo Tribunal Federal sobre a saída de Dias Toffoli da relatoria do caso envolvendo o Banco Master expôs, nesta sexta-feira (13), um tribunal em tensão, dividido entre autopreservação institucional e cálculo político. As falas, publicadas pelo jornal Poder 360 após suspeitas de que a reunião secreta teria sido gravada, revelam pressão interna, críticas à Polícia Federal e o reconhecimento de que a imagem pública da Corte entrou no centro da decisão que acabou levando à redistribuição do processo.
Nos bastidores, o decano Gilmar Mendes atribuiu a crise a um embate com investigadores:
“Eu acho que o que está por trás disso é que o ministro Toffoli tomou algumas decisões ao longo do seu tempo nesse caso Master aqui no STF que contrariaram a Polícia Federal. E a Polícia Federal quis revidar”.
Já a ministra Cármen Lúcia explicitou a preocupação com a opinião pública:
“Todo taxista que eu pego fala mal do Supremo. A população está contra o Supremo”.
Apesar disso, ponderou ter “confiança” em Toffoli, mas defendeu “pensar na institucionalidade”.
O apoio mais direto veio de Luiz Fux, que encerrou qualquer nuance:
“O ministro Toffoli para mim tem fé pública. Meu voto é a favor dele. Acabou. Eu não sei o que vocês estão discutindo”.
Em tom técnico e contundente, Kassio Nunes Marques classificou a controvérsia como inexistente juridicamente:
“Para mim, isso é um nada jurídico”.
E avançou na crítica ao encaminhamento da presidência do tribunal:
“Isso é um absurdo: o juiz lá da comarca do interior passará a ser comandado pelo delegado local se aceitarmos esse tipo de situação. Acabou o Poder Judiciário do Brasil. O sr. [Fachin] não pode colocar em votação a arguição. Minha sugestão é que o ministro relator do processo faça uma proposição dizendo que não é impedido nem suspeito e coloque os argumentos dele diante do que foi apresentado e a gente vota. E pelo que vi aqui, ele vai ter maioria. O ideal seria unanimidade, presidente. Mas estou falando mais sobre encaminhamento, pois do mérito eu não tenho dúvida”.
Na mesma linha, André Mendonça rebateu suspeitas de proximidade indevida:
“Tem uma questão sobre o que é descrito como relação íntima do ministro Toffoli”.
“Isso não existe. Está aqui claro que não existe: relação íntima em 6 anos só com 6 minutos de conversa? Como disse o ministro Fux, a palavra do ministro Toffoli tem fé pública. Então, isso está descartado”.
Também crítico ao material investigativo, Cristiano Zanin afirmou:
“Sou há 1 ano e meio relator de um caso que envolve 3 ministros do STJ (Superior Tribunal de Justiça) e a Polícia Federal até hoje mandou para mim muito menos informação do que essas 200 páginas, com fotos de satélite, cruzamento de celulares? Isso aqui tudo é nulo”.
A intervenção mais política partiu de Flávio Dino, que atacou diretamente o relatório:
“Essas 200 páginas [de relatório da PF] para mim são um lixo jurídico. Não adianta discutir esse lixo jurídico. A crise hoje é política, presidente [Fachin]. Em 2035, se Deus me der saúde, eu quero estar nesta cadeira. E esta cadeira tem bônus e ônus. Eu acho que não adianta pensar nesta cadeira só nos bônus. Eu acho, sr. presidente, que o sr. deveria ter resolvido isso dentro da institucionalidade da presidência”.
Mesmo sem falas literais divulgadas, o posicionamento de Alexandre de Moraes apareceu descrito como uma defesa dura de Toffoli e um ataque à investigação da PF, peça central do conflito institucional que paira sobre o caso.
No fim, apesar da maioria inclinada a mantê-lo, o desfecho foi político: Toffoli deixou a relatoria. A crise, porém, ganhou nova camada, com a suspeita entre magistrados de que a sessão reservada foi gravada clandestinamente pelo colega, hipótese negada por ele. Ainda assim, alguns integrantes da Corte consideraram estranho o fato de apenas trechos favoráveis a Toffoli terem sido divulgados.
O episódio escancara um tribunal que tenta preservar autoridade enquanto enfrenta uma guerra de narrativas entre investigação, poder e confiança interna, e expõe, sem filtros, o vocabulário e a estratégia de quem decide no topo da Justiça brasileira.



