O caso da pequena Celina, que percorre 3,5 quilômetros a cavalo para chegar à escola no interior de Rosário do Sul, não é isolado. Após a publicação da reportagem do Fronteira 360, que revelou a rotina da criança, outras mães entraram em contato para relatar o mesmo problema: a suspensão repentina do transporte escolar nas localidades da campanha, que vem causando transtornos e preocupação.
A mudança ocorreu após a aprovação do Projeto de Lei Ordinária nº 03/2026, que regulamenta o serviço de transporte escolar público no município. A lei, aprovada com apenas um voto contrário na Câmara de Vereadores, estabelece que o transporte escolar atenderá apenas alunos residentes a mais de cinco quilômetros da linha mestra e que veículos não circularão por estradas ou acessos particulares, transferindo aos pais ou responsáveis o deslocamento até os pontos de embarque.
Mãe de um menino de quatro anos, que iniciaria as aulas neste ano, Caroline Pietro questiona a exigência de distância mínima: “Só podem buscar criança a partir de 5 quilômetros. Ali tem 2 quilômetros e não querem buscar. Eu acho uma falta de respeito o que estão fazendo.”
Caroline também relata que a mudança nas regras do transporte escolar quebra uma tradição de décadas na zona rural. Ela lembra que, durante os nove anos em que estudou na campanha, o transporte sempre buscou as crianças, independentemente da localização, e que agora a situação se tornou muito mais difícil para as família.
“Agora inventaram isso. Então imagina a gente estar perdendo horário pra ir na estrada levar a criança, esperar a condução e depois cuidar da condução de novo? Isso gera transtorno para nós e para os patrões”, desabafa. Ela também aponta o impacto financeiro e humano: “Imagina quem não tem condução e vai ter que fazer 3, 4 quilômetros todos os dias, a pé, em beira de estrada? Imagina quando chegar o inverno?”.
A situação de Aline Nascimento é ainda mais dramática. Ela afirma que terá de percorrer até 16 quilômetros por dia para suprir a ausência do transporte. “Não temos condições financeiras para fazer este trajeto todos os dias”, afirma.
Segundo a moradora, a localidade de Campo Seco é responsável por uma das maiores produções agrícolas de Rosário do Sul e sempre enfrentou dificuldades estruturais. Agora, a dificuldade umenta com o abandono a própria sorte das crianças que desejam estudar. “Nosso apelo é para o prefeito revogar esta lei e deixar como estava”, afirma.
No Campo Seco, Maristela Verdum afirma que o ônibus deixou de entrar na localidade onde diversas famílias trabalham. “O transporte entrava, pegava os alunos e agora não está mais fazendo isso”, relata.
Maristela trabalha na lida campeira, que começa com o nascer do sol, até o ano passado, tinha a segurança de que seu filho seria buscado e deixado em casa, ou pelo menos em local próximo. Mas recentemente, tudo mudou.
“Entrou o ano e não fomos avisados previamente de nada. Simplesmente da noite para o dia apareceu essa nova lei”, reclama.
Márcia, moradora da estância Bocaina, também relata que o aviso foi dado em cima da hora. “Dia 18 começaram as aulas e dia 20 o motorista avisou que a partir de segunda-feira não entrava mais lá”, afirma.
Com duas filhas em horários diferentes, adaptar a mudança com a rotina de trabalho se tornou inviável. “Passa cinco horas da manhã para uma e sete e meia para outra. Fica muito complicado para mim trazer as duas e depois buscar também”, declara.
Ela teme que as filhas percam o acesso a educação devido a falta de transporte.
Maristela também questiona a falta de apoio e valorização aos moradores do interior. Segundo ela, enquanto se fala em incentivar que alunos e trabalhadores continuem na campanha, medidas recentes acabam penalizando justamente quem escolheu permanecer no interior.
“Não é justo, chega a ser desumano. A gente está trabalhando na campanha porque quer dar uma vida melhor aos nossos filhos, mostrar o futuro que eles podem ter aqui e como é bom morar aqui, trabalhar dignamente, e de repente aparece essa novidade, que pra mim é um absurdo”, desabafa.
Em seu relato, Caroline também questiona o argumento de economia em gasolina diante das prioridades da gestão política da cidade ao relembrar o caso da aquisição de celulares de luxo por quase R$50 mil reais. “Mas como é que para comprar iPhone eles têm? Isso que nos indigna”, declara.
O apelo geral é sintetizado por Maristela: “Isso está nos prejudicando imensamente. Eu peço encarecidamente aos órgãos que são responsáveis para que liberem esse transporte para entrar nos corredores necessários”.
Enquanto isso, pais e mães da zona rural seguem divididos entre o trabalho no campo e a incerteza sobre como garantir, diariamente, o direito básico dos filhos à educação. O transporte escolar é um direito fundamental de alunos da educação básica pública no Brasil, assegurado pela Constituição Federal de 1988 e pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB – Lei nº 9.394/96). Voltado prioritariamente a estudantes da zona rural ou de áreas de difícil acesso, ele é responsabilidade do município e do estado, garantindo não apenas o acesso, mas também a permanência na escola
A reportagem do Fronteira 360 entrou em contato com a Secretaria de Educação do Município de Rosário do Sul, mas não recebeu nenhum retorno até o momento. O espaço segue aberto e a reportagem será atualizada caso haja um posicionamento da Prefeitura.



