O escândalo envolvendo a criptomoeda Libra ganhou novos capítulos e colocou o presidente da Argentina, Javier Milei, no centro de uma crise política após a revelação de um documento que indicaria um suposto acordo de US$ 5 milhões destinado ao mandatário em troca de apoio público ao lançamento do token, esquema que teria resultado em prejuízos estimados em cerca de US$ 100 milhões para investidores, segundo investigações sobre o colapso da criptomoeda. As revelações foram destaque na capa dos principais jornais argentinos neste domingo (15).
O material foi encontrado no celular do trader Mauricio Novelli durante uma perícia realizada na investigação conduzida pelo promotor Eduardo Taiano. O texto, registrado no bloco de notas do aparelho e datado de fevereiro de 2025, detalharia um acordo financeiro envolvendo o empresário cripto Hayden Davis, citados nas mensagens como “H.”
Segundo a anotação, o pacto previa pagamentos em três etapas diretamente ligados ao apoio público de Milei ao projeto. O documento começa com a frase:
“Hola chicos. Este es el acuerdo final tal como lo discutimos con H.”
Em seguida, detalha as condições:
“$1.5M de tokens o cash como pago adelantado.”
“$1.5M de tokens o cash = Milei anuncia en Twitter como su asesor a Hayden Davis/Kelsier/la familia Davis.”
“$2M en tokens o cash = contrato firmado en persona con Milei para asesoramiento en blockchain/IA.”
Somadas, as etapas chegariam a US$ 5 milhões, valor que, segundo a investigação, estaria ligado ao respaldo público do presidente ao projeto cripto.
Como funcionou o escândalo da $LIBRA
O caso está relacionado ao lançamento da criptomoeda $LIBRA, divulgada por Milei em uma publicação nas redes sociais em 14 de fevereiro de 2025. No post, o presidente apresentou o projeto como uma iniciativa para impulsionar investimentos e financiar pequenos empreendedores na Argentina.
A divulgação presidencial provocou uma corrida de investidores para comprar o token. Poucas horas depois, porém, o valor da moeda despencou, gerando perdas milionárias para milhares de compradores, enquanto um grupo restrito teria obtido ganhos com operações realizadas no início da negociação, mecanismo frequentemente associado a esquemas de “pump and dump”, quando um ativo é promovido para inflar seu preço antes de um colapso.
Negativa de Milei e novas evidências
Desde o início do escândalo, Milei sempre negou qualquer vínculo com a operação envolvendo $LIBRA. O presidente afirmou que não promoveu a criptomoeda e que apenas teria divulgado nas redes sociais um empreendimento privado que encontrou na internet, que segundo ele serviria para “incentivar o crescimento da economia argentina”.
No entanto, investigações posteriores indicam que o contrato divulgado no post presidencial não estava disponível publicamente e teria sido enviado diretamente a Milei antes da publicação.
Perícias realizadas no celular de Novelli também revelaram mensagens e documentos considerados comprometedores pelos investigadores. Entre eles estariam rascunhos de contratos entre Davis e Milei, além de registros que indicariam que o presidente tinha conhecimento prévio sobre criptomoedas, incluindo aulas sobre criptoativos ministradas por ele em uma escola ligada ao grupo de Novelli.
Ligações frenéticas antes e depois do tweet
Outro elemento central da investigação é um relatório técnico com o histórico de chamadas realizadas por Novelli no momento do lançamento da criptomoeda. Os dados indicam uma sequência intensa de ligações entre o trader, Milei e integrantes do círculo mais próximo do governo pouco antes e logo após a divulgação do token.
Segundo o relatório, Milei publicou o tuíte promovendo a criptomoeda às 19h01 do dia 14 de fevereiro. Minutos antes disso, às 18h54, Novelli ligou para o presidente e os dois conversaram por 1 minuto e 25 segundos. Às 18h56, Milei tentou retornar a ligação. Às 18h58, o trader voltou a falar com o presidente por mais de um minuto, praticamente até o momento da postagem.
Apenas dois minutos após o tuíte, às 19h03, Novelli voltou a entrar em contato com Milei e os dois conversaram novamente. A sequência de chamadas continuou ao longo da noite, enquanto o valor da criptomoeda começava a cair.
Também há registros de diversas conversas entre o operador e a irmã do presidente, Karina Milei. Às 21h29, por exemplo, Karina falou com Novelli por 3 minutos e 24 segundos. Às 22h, Milei voltou a ligar para o trader e conversou por 3 minutos e 9 segundos. Pouco depois, às 22h25, houve outra ligação entre os dois, desta vez com duração de 4 minutos e 29 segundos.
Nos minutos seguintes, o círculo de contatos de Novelli se ampliou. O operador passou a trocar chamadas com assessores do governo e empresários ligados ao projeto, incluindo Demian Reidel, Santiago Caputo e Julian Peh.
Tentativa de conter o escândalo
A intensa troca de chamadas seguiu durante a madrugada. Pouco depois da meia-noite, a empresa Kip Protocol, associada ao projeto, divulgou um comunicado afirmando que a criptomoeda havia sido um sucesso e que o presidente argentino não participava de seu desenvolvimento.
Minutos depois, Milei publicou nova mensagem nas redes sociais afirmando que havia apoiado “um suposto empreendimento privado com o qual obviamente não tenho nenhuma ligação” e que decidiu apagar o tuíte inicial após tomar conhecimento dos detalhes do projeto.
Para investigadores e analistas do caso, a sequência de chamadas e mensagens sugere que integrantes do círculo mais próximo do governo atuaram durante a madrugada para tentar conter a crise, depois que o colapso da criptomoeda deixou milhões de dólares em perdas para investidores e lucros concentrados em um pequeno grupo que entrou primeiro no ativo digital.
Com informações jornal El Destape.



