Na manhã desta quinta-feira (11), o artista argentino José Kura esteve em São Borja e conversou com o Fronteira 360 sobre sua trajetória, o ofício da criação e sua relação com a cidade. Nascido em Corrientes, em 1959, Kura iniciou o caminho que parecia traçado pelo desejo do pai: estudou quatro anos de medicina. Mas o chamado das artes falou mais alto. “Sempre gostei de desenhar, de criar arte”, contou. “Acredito que a medicina está muito relacionada às artes, entre outras coisas, à música, à pintura.”
Quarenta anos depois da decisão de abandonar os bisturis e seguir os pincéis, ele soma murais, esculturas, desenhos e projetos que carregam a marca de um olhar atento ao mundo. A primeira paixão foram as ‘historietas’, as tirinhas publicadas em jornais, mas o destino o levou às grandes paredes. Esse caminho, lembra, teve influência decisiva do mestre Juan Carlos Soto, que lhe abriu a janela para o muralismo a partir da escola mexicana e do expressionismo alemão. “Um mural não é apenas uma pintura grande em uma parede. O mural carrega uma linguagem, uma gramática, uma composição, um equilíbrio.”
O artista fala do processo criativo como quem descreve algo indomável. Às vezes é uma música, outras vezes uma leitura, ou ainda um fato histórico que o provoca. “Não existe um método em que alguém diga: eu começo do A e termino no Z. Cada artista encontra sua musa de maneira diferente.”
Sobre São Borja, Kura não esconde o afeto. “Sempre é uma possibilidade muito bonita. É uma cidade encantadora, tem esse caráter histórico de cidade antiga, e isso lhe dá uma beleza particular. Aqui cultivei amizades, pessoas muito boas, amáveis e acolhedoras.”
Além da produção artística, ele também viveu a experiência da gestão pública, como Diretor de Cultura de Corrientes. Sobre o cargo, ele é claro: “Fazer política cultural tem a ver com a gestão. Se não há apoio da gestão, é muito difícil fazer algo”.
Neste cargo, aprendeu que inovar em políticas culturais exige mais que sensibilidade: requer ação e continuidade. Foi desse modo que criou uma escola de dança, encontros de muralismo, feira do livro, eventos que, segundo ele, se transformaram em um calendário anual. “Não se trata apenas de fazer eventos passageiros, mas de gerir algo que permaneça para a comunidade, que tenha valor cultural e também turístico.”
Antes de encerrar a conversa, deixou um recado que resume sua crença no poder da arte: “Mais do que aos jovens artistas, eu sugiro aos pais e avós que incentivem filhos e netos a participar de atividades artísticas ou esportivas. A arte e o esporte sempre fazem bem à mente e ao espírito.”
A companheira Ana Dalci
Ao lado de José Kura está a brasileira Ana Dalci, professora aposentada de Língua Portuguesa que encontrou nas artes um novo caminho de vida. Ela conta que conheceu o marido no Brasil, e no ano de 1995, e que, mais tarde, mudou-se para Corrientes, onde lecionou português como língua estrangeira até se aposentar.
Foi então que passou a se aproximar do universo criativo dele, ajudando em restaurações e na confecção de murais. “Não sou artista, mas ajudo. Agora faço curso de mosaico e já participamos de murais com essa técnica. Estou adorando essa fase”, disse.
Para Ana, acompanhar a construção de um mural é uma experiência única. “Cada mural é único, não existe mais bonito ou mais feio, cada um tem sua beleza particular.”
Entre tantos trabalhos que presenciou, recorda com emoção aquele em que o artista retratou seu pai, gaúcho ligado às tradições do CTG. “É meu pai a cavalo, eternizado no muro. Essa obra me marcou muito.”
Mais do que auxiliar, Ana se tornou parte fundamental da caminhada artística de Kura, trazendo um olhar sensível e participativo, que reforça o caráter coletivo da arte mural.
A memória em cores
Em São Borja, Jose Kura já deixou sua marca. Além das obras em homenagem ao General Canabarro e de Apparício Mariense, na Esquina das Sombras, que esteve restaurando nesta quinta, o artista possui na Universidade Federal do Pampa um painel em homenagem à Coluna Prestes, que retrata o gaúcho Luís Carlos Prestes e sua companheira, Olga Benário. O trabalho foi promovido pelo curso de Relações Públicas em parceria com a jornalista Mikita Cabelleira, com apoio de técnicos e servidores da Unipampa.
O artista também já havia deixado sua marca em outros pontos da cidade, como na Praça da Estação Férrea, com a obra “Estação da Paz”, criada em alusão aos 150 anos da Guerra do Paraguai.
Essas obras não apenas embelezam os espaços urbanos, mas despertam memórias. Foi o que sentiu Izaac Martini Escobar, bisneto de Apparício Mariense, ao ver o mural em homenagem ao seu antepassado. “Isso é muito importante porque fica na memória. Eu sou bisneto dele e isso me lembra os meus avós contando sua história. É muito significativo que alguém esteja resgatando e dando continuidade ao legado que ele deixou.”
Entre formas, cores e vozes, a passagem de José Kura por São Borja reafirma que a arte não é apenas ofício ou estética: é memória, encontro e legado.



