Há quem diga que cada cidade tem sua própria alma. A de São Borja, certamente, dança fandango. É curioso como a história insiste em marcar presença por aqui: foi o primeiro dos Sete Povos das Missões, berço de presidentes que moldaram o destino do Brasil, e, mais recentemente, ganhou o título de Capital Gaúcha do Fandango.
Não poderia ser diferente: a música que veio de longe, encontrou no pampa um chão fértil para ecoar em noites de gaita e baile.
Sempre pensei na Semana Farroupilha como uma festa na qual a nossa história respira. É o tempo em que cada gaúcho vai ao galpão interior de si mesmo e tira de lá a tradição para colocá-la à mesa, nas ruas e piquetes.
No lugar do silêncio cotidiano, surgem os bailes; no lugar da pressa dos dias comuns, a calma de quem sabe celebrar o que permanece. E o mesmo calor humano — porque, no fundo, toda festa que se faz coletiva é uma celebração da vida.
Em São Borja, impossível não perceber a mudança de atmosfera. O ar cheira a churrasco desde cedo, as vitrines das lojas ganham as cores da nossa bandeira, o som da gaita atravessa madrugadas, e as ruas, que normalmente pertencem aos carros apressados, passam a ser tomadas também por cavalos e cavaleiros.
É um espetáculo cotidiano: pilchados cruzam a cidade a cavalo, às vezes com bandos de dez, vinte cavaleiros e cavaleiras. O cenário parece arrancado de um livro antigo, mas é apenas a vida se repetindo com um toque de solenidade.
Outro dia, enquanto pedalava devagar por uma rua central, dei de cara com dois desses gaúchos de lenço vermelho e botas longas. Vinham sorrindo, tranquilos, ocupando o asfalto como se fosse campo aberto.
Atrás deles, o som impaciente da buzina de uma caminhonete reluzente, dessas que correm nos comerciais de televisão. O motorista, preso entre o trabalho e a pressa, não entendeu que naquela semana o tempo é outro.
O gaúcho apenas sorriu, com calma, e deu passagem, ainda rindo, afinal, é Semana Farroupilha e nada pode apagar a celebração.
É justamente esse sorriso que me lembra por que o 20 de Setembro não é apenas uma data no calendário: é o Dia do Gaúcho.
Mais do que lembrar uma revolução controversa, ele marca a persistência de um jeito de ser. A pilcha, o cavalo, a música e o churrasco não são só adereços, são símbolos de identidade.
Nesse dia, o gaúcho reafirma quem é, não importa se mora no campo, na cidade, no Brasil ou fora dele.
E assim segue São Borja, vivendo entre passado e presente, entre buzinas de caminhonetes e o compasso firme da gaita. Porque, aqui, enquanto houver fandango, sempre haverá gaúchos sorrindo no meio da rua, nos bailes e piquetes, donos de um tempo que insiste em resistir.



