A política, meus caros, não é para amadores.
É um palco onde a verdade, coitada, muitas vezes é apenas uma figurante com um roteiro flexível.
Dizem que o homem é um animal político; eu diria que é um animal político, sim, mas com uma inclinação quase artística para a dissimulação.
A política é apenas a galeria de arte onde essa inclinação expõe suas obras mais primorosas.
Pensemos bem.
Desde que o primeiro hominídeo decidiu que era mais eficaz convencer o grupo a ir caçar mamutes para o leste, quando na verdade ele queria a pele mais grossa dos que estavam no oeste (e só ele sabia como abater aquele tipo específico), a manipulação já estava lá.
Um cálculo primitivo, é verdade, mas um cálculo.
Com o tempo, essa arte foi se refinando, ganhando vernizes de civilidade, até desaguar no grandioso espetáculo que chamamos de vida pública.
O político, em sua essência mais pragmática, é um ilusionista.
Não com coelhos saindo de cartolas, mas promessas saindo de palanques.
O truque não é fazer desaparecer um objeto, mas fazer desaparecer a realidade desconfortável, substituindo-a por uma versão mais palatável, mais digerível para as massas ávidas por soluções mágicas.
Ele oculta intenções?
Ora, é claro!
Revelar a intenção nua e crua seria como um mágico explicando o segredo do seu truque antes da performance.
O encanto se desfaz, o jogo acaba.
E as verdades selecionadas são as estrelas do espetáculo.
Não se trata de mentir descaradamente, dirão os estrategistas (com um sorriso quase imperceptível).
Trata-se de enfatizar o que convém e suprimir o que atrapalha.
É como um fotógrafo que escolhe o melhor ângulo, a melhor iluminação, para uma pessoa que, na vida real, talvez não seja tão fotogênica.
A imagem resultante é “verdadeira” no sentido de que a pessoa existe, mas é uma verdade… editada.
Os discursos, então, são as pinceladas finais nessa obra de arte do engano.
Moldados com o cuidado de um ourives, cada palavra é escolhida não apenas pelo seu significado literal, mas pelo seu impacto emocional, pela sua capacidade de ressoar com os anseios (e os medos) da população.
Um discurso político é um camaleão, adaptando sua cor ao ambiente, ao público, à pesquisa de opinião mais recente.
Ele pode ser inflamado para uns, conciliador para outros, tecnocrático para os poucos que ainda acreditam em números.
A coerência, por vezes, é um luxo que a arte da manipulação não pode se dar.
Em meio ao labirinto de narrativas meticulosamente erguidas, onde a cortina de fumaça se adensa mais que a própria neblina da manhã, resta-nos apenas indagar: qual é o nosso lugar — nós, simples espectadores, vítimas e eleitores?
Como nos encontrar em meio a essa sinfonia inaudível de meias-verdades e intenções veladas?
Talvez nossa bússola deva ser o cinismo saudável.
A arte de desconfiar do óbvio, de ouvir o que não foi dito, de ver o que foi ocultado.
Talvez devamos, cada um de nós, desenvolver nosso próprio detector de “fumaça e espelhos”.
Porque, enquanto a política continuar a ser o grande palco da dissimulação humana, a nossa única chance de não virar meros fantoches é entender que, por trás de cada sorriso promissor e cada aperto de mão caloroso, há sempre, sempre, um artista da manipulação aperfeiçoando seu próximo truque.
E a maior das manipulações é, talvez, nos fazer crer que não estamos sendo manipulados.
Por Gastão Ponsi



