O grupo Aegea Saneamento, que venceu o leilão da Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan) em dezembro de 2022 com uma proposta de R$ 4,151 bilhões, aparece envolvido em denúncias de corrupção.
Documentos de delação premiada homologada pelo STJ em 2025 e obtidos por reportagem do UOL revelam que executivos da companhia admitiram pagamento de propina a prefeitos, governadores e membros de órgãos de fiscalização em ao menos seis estados e 20 municípios, entre 2010 e 2018.
Segundo os relatos, o esquema movimentou cerca de R$ 63 milhões, pagos em dinheiro vivo, contratos fictícios, compra de imóveis e veículos de luxo, para obter ou manter concessões de água e esgoto.
Parte desse passivo foi regularizada em acordo de leniência com o Ministério Público Federal, que determinou o pagamento de R$ 439 milhões à União, parcelados em 15 anos, e permitiu que a empresa atraísse grandes investidores, como a Itaúsa, sem entraves jurídicos.
A Aegea, que hoje atende 890 municípios e 39 milhões de pessoas, se tornou protagonista do mercado de saneamento no Brasil após o Marco do Saneamento Básico, em 2020, que abriu caminho para investimentos privados e expansão regionalizada dos serviços.
No entanto, a própria companhia admitiu aos procuradores que a expansão envolveu práticas ilícitas, incluindo a entrega de recursos a políticos em troca de apoio institucional e manutenção de contratos.
Entre os episódios relatados estão pagamentos a agentes públicos em Santa Catarina, Mato Grosso e Rio de Janeiro, incluindo R$ 8 milhões para o então secretário do Governo do Rio e valores destinados a campanhas de prefeitos e governadores.
Após as revelações, autoridades citadas negaram qualquer envolvimento, chamando as alegações de “mentirosas” ou “estapafúrdias”.
A série de delações detalha como a Aegea estruturou o pagamento de propinas e a criação de “caixas” para distribuição de dinheiro, garantindo a operação de suas concessões e abrindo caminho para sua entrada em grandes leilões, incluindo a aquisição da Corsan, responsável pelo abastecimento de água e tratamento de esgoto em diversos municípios do Rio Grande do Sul.
Apesar das denúncias sobre práticas ilícitas em outras concessões, até o momento não há qualquer comprovação de irregularidade na própria aquisição da Corsan, que segue válida e legal, embora com diversas reclamações relacionada ao serviço prestado.
O caso evidencia a complexidade e os riscos que envolvem a privatização de serviços essenciais, como água e esgoto, e reforça a atenção sobre a atuação de grandes grupos privados no setor, que hoje se consolida como um dos principais fornecedores de saneamento do país.
Foto: Itamar Aguiar/Palácio Piratini



