O discurso do presidente Donald Trump após ordenar bombardeios contra instalações nucleares iranianas revelou muito mais do que uma ofensiva militar: expôs uma inversão simbólica no projeto político que o levou ao poder. Em pelo menos duas ocasiões cruciais de sua fala, Trump agradeceu primeiro ao governo e aos militares de Israel — e só depois se dirigiu aos soldados e ao povo americano.
A cena sintetiza um paradoxo cada vez mais evidente: o slogan “America First” (América em primeiro lugar), que impulsionou sua campanha à Casa Branca, vem cedendo espaço a uma agenda de interesses fortemente alinhados ao governo de Benjamin Netanyahu e ao lobby sionista.
Durante o pronunciamento, Trump afirmou:
“Quero agradecer e parabenizar o primeiro-ministro Bibi Netanyahu. Trabalhamos como uma equipe como talvez nenhuma equipe jamais tenha trabalhado antes, e fizemos um longo caminho para eliminar essa terrível ameaça a Israel. Quero agradecer aos militares israelenses pelo maravilhoso trabalho que realizaram.”
Somente depois dessas declarações é que o presidente volta sua atenção aos EUA:
“E, mais importante, quero parabenizar os grandes patriotas americanos que pilotaram aquelas magníficas máquinas esta noite, e todos os militares dos Estados Unidos por uma operação como o mundo não via há muitas e muitas décadas.”
A ordem da fala não é mero detalhe retórico. Em discursos presidenciais — especialmente em momentos de guerra — a hierarquia dos agradecimentos, dos apelos e dos símbolos diz muito sobre prioridades políticas e geopolíticas. O próprio encerramento do discurso repete a sequência:
“Deus abençoe o Oriente Médio. Deus abençoe Israel e Deus abençoe a América.”
A presença de Israel em todas as etapas da fala, incluindo o clímax e a conclusão, mostra que a ação militar americana não é apenas uma resposta à escalada entre Teerã e Tel Aviv. É também uma mensagem: os EUA estão dispostos a colocar suas forças armadas a serviço da proteção israelense, mesmo que isso signifique ampliar o risco de uma guerra global.
O papel da AIPAC (American Israel Public Affairs Committee), principal braço do lobby sionista nos EUA, não pode ser ignorado nesse contexto. A organização tem longa tradição de financiar campanhas eleitorais, influenciar projetos de lei e pautar debates estratégicos dentro do Congresso americano. Sua influência vai além do bipartidarismo: tanto democratas quanto republicanos costumam adaptar suas agendas externas para não desagradar Tel Aviv. Com Trump, essa relação alcança um novo patamar — quase de subordinação simbólica.
É também revelador que, no mesmo discurso, Trump tenha descrito os bombardeios como uma “operação como o mundo não via há décadas”, exaltando a força e a precisão dos ataques, mas sem apresentar qualquer plano de reconstrução ou diálogo posterior. Tudo se resume à destruição de uma ameaça que, nas palavras dele, dizia “morte à América, morte a Israel” — mas cujo foco de proteção, na prática, foi Israel.
Diante disso, não é exagero afirmar que o governo Trump, ao menos neste episódio, abandonou temporariamente o “America First” para aderir ao “Israel First”. A retórica, os gestos e a diplomacia bélica revelam uma presidência que se projeta cada vez mais como guardiã de interesses estrangeiros — mesmo que isso custe vidas americanas e desestabilize ainda mais uma região em ruínas.
Seja qual for o desfecho desse novo capítulo no Oriente Médio, o discurso de Trump ficará marcado como um símbolo da contradição entre o nacionalismo de campanha e a realpolitik de um governo fortemente influenciado por alianças ideológicas e lobbies transnacionais. E nisso, o povo americano, que votou por menos guerras e mais foco interno, talvez esteja sendo o maior esquecido.



