Ontem, publicamos aqui no Fronteira 360 uma matéria que trazia o relato de uma maquiadora, mulher trans, que relatava ter sofrido transfobia em um CTG de Itaqui. Creio que fomos os primeiros a relatar o fato, que logo foi republicado por diversos portais de notícias no Rio Grande do Sul e resultou num pronunciamento do Centro de Tradições Gaúchas Rincão da Cruz.
Hoje, ao acordar, a matéria já somava quase 1 milhão de visualizações e mais de 4 mil comentários. Nesse texto, não vou entrar no mérito da denúncia, que deve ser analisada na Justiça, nem da nota do CTG.
É sobre alguns dos comentários que quero falar. Em meio a mensagens que repudiavam o suposto episódio de discriminação, também havia muitas que reforçavam o preconceito — o que é inadmissível.
Entre os principais argumentos, estavam a questão do “respeito” à tradição e às regras do CTG. Ora, acredito que nenhuma instituição tenha regras que impeçam pessoas trans ou LGBTQIA+ de entrar em seus recintos, o que seria crime. E muito menos que impeçam uma mulher trans de dançar — o que seria, novamente, um ato criminoso.
De forma que não há nenhum “desrespeito” à tradição no fato de uma mulher trans, uma civil como qualquer outra, querer dançar. Afinal, não é para isso que servem os bailes?
Outro argumento era a questão dos banheiros, que nos últimos anos se tornou uma pauta prioritária de políticos de extrema direita. Sim, num país com tantos problemas sociais e estruturais, há quem ache que a prioridade é o uso de banheiros femininos por mulheres trans.
O espantalho usado é que uma mulher trans não poderia usar o banheiro feminino, pois iria “expor suas partes íntimas em frente a mulheres e crianças”.
Olha, eu não sei que banheiros femininos são esses. Por acaso não são todos fechados? Até onde sei, não há mictório em banheiro feminino, de forma que uma mulher trans, assim como qualquer outra, vai entrar, fazer suas necessidades e sair.
O que fica implícito nesse argumento é um medo irracional de que pessoas trans poderiam cometer algum ato hediondo, como mostrar suas partes íntimas — o que não condiz com a realidade.
Uma pessoa trans é uma pessoa como qualquer outra e usa o banheiro como qualquer pessoa normal faria. Como alguém que tem amigas trans, posso dizer com certeza que a única coisa que elas querem é serem aceitas e tratadas de maneira normal, como qualquer outra pessoa.
E vamos falar de dados? Pois não existe nada que justifique tamanho pânico moral.
Na maioria dos casos de abuso sexual contra crianças e adolescentes no Brasil, 87% dos suspeitos são homens héteros. Em 40% das denúncias, o agressor é pai ou padrasto. Em 73% dos episódios, a violência ocorre na casa da vítima ou do próprio agressor. Ou seja: o perigo não está em banheiros públicos ou em bailes, mas na própria estrutura social que normaliza a violência de homens cis heterossexuais.
Enquanto isso, as mulheres trans não são ameaça alguma: elas são as verdadeiras vítimas. Em 2023, o Brasil registrou 145 assassinatos de pessoas trans, sendo 136 de travestis e mulheres trans, um aumento de 10,7% em relação a 2022. Mesmo em 2024, com uma queda para 122 casos, o país segue liderando o ranking mundial de mortes de pessoas trans. Além disso, pesquisas mostram que mais da metade das mulheres trans já sofreu violência sexual em algum momento da vida, muitas em mais de uma ocasião.
Esses números não deixam dúvida: mulheres trans não colocam ninguém em risco. Ao contrário, são elas que vivem diariamente sob ameaça. Tudo o que pedem é respeito, dignidade e o direito básico de viver sem medo.
E como gaúchos, somos um povo marcado pela diversidade, fruto da convivência de múltiplas culturas que se entrelaçam em nosso estado — descendentes de italianos, alemães, indígenas e tantas outras origens construíram juntos a nossa história.
Essa riqueza cultural deveria nos ensinar que o preconceito não combina com o Rio Grande do Sul; respeitar e valorizar as diferenças é, mais do que um dever, a expressão mais genuína da nossa identidade.



