As festas promovidas por Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em sua mansão em Trancoso, na Bahia, não eram apenas eventos de luxo: eram laboratórios de poder, influência e blindagem social.
É o que indicam documentos do Ministério Público Federal (MPF), relatórios da Polícia Federal e relatos de executivos da REAG DTVM, que descrevem encontros que combinavam sexo, bebida, ostentação e negociação, realizados sob regras que garantiam controle absoluto sobre os convidados.
Conhecidos entre executivos como “Cine Trancoso”, os eventos exigiam rigor extremo: celulares eram proibidos, detectores de metais controlavam a entrada e câmeras internas gravavam todos os cômodos da residência, oficialmente para segurança pessoal, mas que agora levantam suspeitas de preservação de imagens comprometedores de autoridades.
A suíte master tinha cerca de 400 metros quadrados, um espaço que combinava luxo e vigilância máxima.
Segundo o documento do MPF apresentado ao TCU (Tribunal de Contas da União), os encontros reuniam autoridades de alta relevância: integrantes do Executivo do governo de Jair Bolsonaro, magistrados, procuradores, políticos do Centrão e figuras do mercado financeiro. Executivos da REAG DTVM, liquidada pelo Banco Central, descrevem um dos convidados do Poder Judiciário como o “pica das galáxias”, mostrando o nível de poder presente.
A escolha das acompanhantes não era aleatória: mulheres estrangeiras, em sua maioria suíças, norueguesas, suecas e holandesas, sem domínio do português e sem conhecimento da política brasileira, atuavam como uma blindagem estratégica. Conforme relatado pelo MPF, essa logística visava garantir sigilo absoluto, evitando que qualquer informação sobre os encontros vazasse para o público ou para autoridades externas.

As revelações sobre o uso da casa de veraneio de Trancoso também foram aprofundadas por reportagens da revista digital Revista Liberta e por mensagens de WhatsApp anexadas ao processo judicial. Nelas, a ex-proprietária do imóvel, Sandra Habib, esposa de Sérgio Habib, presidente da JAC Motors Brasil, descreve sua indignação com o comportamento do locatário Daniel Vorcaro, afirmando que “Vorcaro encheu a minha casa de putas. Ele, amigos e muitas putas!”.
Para o procurador do MP junto ao TCU, Lucas Furtado, os eventos levantam sérias preocupações:
“Não se sabe ao certo a extensão dos fatos nem a magnitude das possíveis irregularidades que podem estar associadas aos eventos realizados pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Há indícios de que autoridades federais de alta cúpula possam estar envolvidas, o que reforça a necessidade de uma apuração rigorosa e transparente.”
Apesar dos indícios, a área técnica do TCU recomendou arquivar o pedido de investigação feito pelo MPTCU, alegando que a representação não apresentava evidências de gestão de recursos públicos federais e que não havia indícios concretos de irregularidade, limitando a competência do tribunal.
O material captado nas festas, vídeos e imagens internas, encontra-se atualmente sob custódia da Polícia Federal e do STF, enquanto a investigação busca determinar a extensão da participação das autoridades e eventuais impactos na administração pública.
Para especialistas, Vorcaro transformou ostentação e libertinagem em instrumento de poder: cada bebida, cada luxo e cada detalhe das festas funcionava como lubrificante para relações políticas e financeiras delicadas, criando uma rede de contatos quase intocável.
Os eventos eram cuidadosamente planejados para manter isolamento, sigilo e controle absoluto sobre todos os participantes, revelando um modelo sofisticado de blindagem social e política.
Resta à Justiça definir até que ponto a exuberância de Vorcaro se converteu em corrupção e se os mecanismos de blindagem permitirão que o caso termine sem respostas.
Fontes: Relatórios da Polícia Federal, Ministério Público Federal, Tribunal de Contas da União, procurador Lucas Furtado, relatos de executivos da REAG DTVM, informações do MyNews e R7.



