São Borja já deu ao Brasil presidentes, governadores, ministros e líderes políticos. Mas, das margens do Uruguai, também saiu um comandante que trocou a farda do Exército pela prancheta, e com ela construiu uma das trajetórias mais sólidas do futebol nacional: Carlos Benevenuto Froner, o “Capitão”.
Nascido em 1919, Froner carregava no olhar a disciplina militar que lhe valeu o apelido, mas, dentro das quatro linhas, transformou rigidez em estratégia, e autoridade em liderança.
Foi no Aimoré dos anos 1950 que começou a desenhar sua história, mas seria no Grêmio, na década seguinte, que seu nome entraria definitivamente para a eternidade do futebol gaúcho.
Entre 1962 e 1968, o Grêmio ergueu sete vezes consecutivas o Campeonato Gaúcho, o célebre hepta. Froner esteve entre os três treinadores que conduziram aquela façanha. Como comandante principal, conquistou os estaduais de 1964, 1965 e 1967, além dos títulos citadinos de Porto Alegre em 1964 e 1965.
Em 314 jogos à frente do Tricolor, somou 197 vitórias, um aproveitamento acima de 70%. Números que explicam por que Felipão, ainda jovem, o chamava de mestre.
A vida do Capitão, porém, não se limitou ao Olímpico. Sua passagem meteórica pelo Internacional em 1962 acabou gerando um dos episódios mais saborosos da rivalidade Gre-Nal: magoado pela dispensa após poucas partidas, aceitou treinar o Aimoré, dando uma injeção de ânimo o time, que viria a vencer o Colorado por 3 a 1 no estádio dos Eucaliptos, tirando o título estadual das mãos do ex-clube e entregando-o ao Grêmio.
Nos anos 1970, Froner realizou outro grande trabalho, dessa vez no nordeste, onde projetou o Santa Cruz do Recife ao cenário nacional, montando o time que chegou às semifinais do Brasileirão de 1975.
Também treinou um dos maiores clubes do Brasil, o Flamengo, onde fez história ao deslocar Júnior para a lateral esquerda, posição onde se tornaria ídolo mundial.
Passou ainda pelo Vasco, pelo Caxias, onde não perdeu nenhum jogo no Centenário, e pelo Juventude.
No futebol baiano, escreveu outro capítulo de ouro: foi campeão estadual com Vitória e Bahia, e em Salvador ostenta até hoje a lembrança da invencibilidade de mais de 60 jogos pelo Tricolor baiano em 1982 – uma das maiores do futebol brasileiro.
Froner também se espalhou pelo Brasil profundo: Joinville, Chapecoense, Aimoré, Ferroviário-PR… sempre carregando consigo a mesma convicção: “futebol não é brincadeira, é compromisso”, dizia, em tom firme. Uma de suas declarações mais famosas foi sobre a fama de “Capitão” e de rigoroso.
“Me chamam de disciplinador, de autoritário e ditador. Vendem minha imagem como se eu fosse um homem mau… Mas jogar futebol profissionalmente não é nenhuma brincadeira. Os deveres estão lá no contrato de cada um! Sou apenas um instrumento da pontualidade e do empenho pelos resultados. Devo ser exigente em favor de quem me paga”, afirmou em entrevista.
Morreu em 2002, aos 82 anos, em Tramandaí. Mas sua figura de técnico disciplinador, estrategista e inovador permanece como referência. Não por acaso, o Campeão do Mundo Felipão sempre o citou como um guia em sua carreira.
Carlos Froner foi desses personagens que o tempo não apaga. Um são-borjense universal, que fez da bola sua trincheira e da beira do gramado, o quartel onde treinava soldados de chuteiras. O Capitão deixou títulos, histórias e lições. Mas, acima de tudo, deixou um legado: o de que no futebol, como na vida, a disciplina e a coragem são caminhos para a glória.



