A notícia correu pelos corredores da Rádio “Onda Livre-Porém-Nem-Tanto”, a nossa ilustre concessionária pública, com o fervor de um memorando ultra-secreto sobre o preço do café.
Um escritor, mestre na arte de narrar a alma humana e de colocar adjetivos onde a gente nem sabia que cabiam, era persona non grata.
Não por suas vírgulas, que são impecáveis.
Nem por seu enredo, que é de tirar o fôlego.
Mas pela sua “dupla jornada”: o sujeito, além de forjar metáforas, tinha a petulância de ser advogado e, pior, advogar contra a própria emissora!
O Gerente de Relação Institucionais, um sujeito que confunde “concessão pública” com “quintal da firma”, bateu na mesa de mogno.
“Inaceitável!”, bramiu ele. “Vamos dar microfone a quem quer nos tirar a cadeira?
E assim, em nome da mais pura e cristalina ignorância de gestão, a emissora decidiu negar a entrevista.
Ou melhor, não autorizou ir “ao ar”, pois a entrevista já havia ocorrido.
O problema, meu caro leitor, é que a Onda Livre-Porém-Nem-Tanto é uma concessionária pública.
Ela não está ali para proteger o traseiro do Gerente na justiça, mas sim para servir à pluralidade, à cultura, à informação.
Ao barrar o escritor-advogado, a emissora, em um surto de miopia organizacional, fez um gol contra homérico.
Primeiro, transformou o escritor em mártir: de “apenas um autor”, ele virou o “escritor silenciado pela emissora (concessão pública federal) que tem medo da verdade (ou do processo)”.
O livro, que venderia bem, agora venderá o dobro, impulsionado pelo delicioso aroma da censura ao autor.
Segundo, exibiu a motivação privada: a recusa provou, em praça pública, que a prioridade da rádio não é a excelência cultural, mas sim o seu litígio particular.
O interesse da empresa prevaleceu sobre o interesse público.
O risco da concessionária?
É que o Judiciário não enxerga bem a diferença entre a crônica literária e a petição judicial, mas enxerga muito bem o que é abuso de poder de quem usa uma concessão pública para fins de retaliatórias.
Se o escritor fosse entrevistado, falaria de seu romance, talvez agradeceria a audiência.
Silenciado, no entanto, ele ganha o megafone moral.
A Onda Livre-Porém-Nem-Tanto se defendeu de um processo e, por total desinformação sobre o que significa “concessão”, arrumou um problema ético, administrativo e de imagem muito maior.
Parabéns à gestão!
Conseguiram trocar um processo civil por uma crônica de mau jornalismo e uma aula grátis de Direito Administrativo.
E essa, sim, daria um ótimo romance!



