por Maicon Schlosser
Ah, Brasília. Sempre ela. Esse grande teatro onde os protagonistas entram em cena com pompa e saem de fininho pela coxia quando a coisa aperta. É nessa terra mágica, projetada por Oscar Niemeyer, que os grandes acontecimentos políticos da nação se desenrolam — e, não raro, se enrolam também. Mas o fato é que só ela poderia nos brindar com cenas tão surreais quanto as que vimos nesta semana.
Lá estava ele, Jair Bolsonaro, ex-presidente e agora inelegível, frente a frente com Alexandre de Moraes — o ministro que já foi chamado por ele de “canalha” e “sem caráter”. No entanto, no depoimento ao STF, o pitbull virou poodle de madame: manso, contido, com aquele olhar de “não fui eu, foi só força de expressão”, abanando o rabinho como cachorro que late atrás do portão, mas treme assim que ele é aberto.
Antes do grande espetáculo, Bolsonaro buscou conselhos com ninguém menos que Michel Temer — o homem que derrubou um governo com mais classe que uma taça de cristal escorregando em câmera lenta. O vampiro da democracia, que ao icônico programa de entrevistas Roda Viva, em 2019, se referiu ao impeachment de Dilma como “golpe”, com a naturalidade de quem comenta a previsão do tempo, sugeriu o impensável: “Peça desculpas, Jair.” E não é que ele obedeceu?
Negou as fake news, reconheceu que não tinha prova de nada e ainda tirou sarro dos próprios fiéis — aqueles que passaram meses acampados pedindo intervenção militar com a fé de quem espera um milagre em feriado prolongado. Chamou-os, com a empáfia de um pai envergonhado, de “malucos”. Isso mesmo. Malucos. E vindo justamente de quem passou anos fantasiado de general sem patente, brincando de soldadinho de chumbo com a democracia.
Mas nada se compara à ironia gourmet de Bolsonaro — o homem que diz não saber como sobreviver enquanto embolsa humildes R$ 100 mil por mês. Isso mesmo: R$ 46 mil de aposentadoria, R$ 11 mil do Exército e um “salário simbólico” de R$ 41 mil como presidente de honra do PL.
Uma renda que faria muito juiz de tribunal superior cogitar vender a casa na praia. E com a cara de pau daria para construir um belo galpão, ainda agradeceu a campanha de Pix “que ele não fez”, como se o povo tivesse saído do nada, num surto coletivo, para lhe depositar 18 milhões por livre e espontânea vontade.
E pra fechar o roteiro de novela mexicana com chave de ouro, Bolsonaro ainda teve a ousadia de convidar Alexandre de Moraes — sim, aquele mesmo — para ser seu vice em 2026. Um plot twist digno de um filme de comédia besteirol, encerrado com o mais elegante “Eu declino” da história recente da República.
E aqui, longe dos salões acarpetados da capital, em São Borja — berço de presidentes e, ao que tudo indica, de alguns malucos também —, tivemos nosso próprio spin-off bolsonarista em 2022: gente pedindo golpe na porta do quartel, questionando resultados de uma eleição democrática e principalmente de uma derrota histórica. Afinal, Bolsonaro conseguiu a proeza de ser o único presidente do Brasil e não conseguir se reeleger.
O mais curioso? Muitos desses malucos não eram apenas figurantes: tinham crachá, mandato e gabinete com ar-condicionado, se é que me entendem. A maioria ainda está no poder, outros até subiram de cargo.
Agora, diagnosticados pelo próprio líder como “malucos”, resta saber se ainda vestem com orgulho a farda do delírio ou se já se despiram da fantasia. Porque, sejamos honestos: não há nada mais constrangedor do que seguir gritando por um capitão que já pulou do navio — e ainda levou o cofre junto.



