Ah, o Senhor “Gengiva”!
Figura folclórica da fronteira, com sua sabedoria peculiar e uma visão geopolítica… digamos… singular.
Imagino a cena perfeitamente: lá está ele, à beira do majestoso rio Uruguai, os braços cruzados em uma pose pensativa que talvez emulasse a de algum filósofo de boteco, contemplando a Argentina como quem observa um vizinho curioso espiando por cima do muro.
E então, a pérola do seu raciocínio fronteiriço: “Não sei como “’Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil e não viu a Argentina ali”, espichando o beiço em direção à outra margem do caudaloso rio.
É uma observação que, sob a ótica de “Seu Gengiva”, faz todo o sentido.
Afinal, para quem vive na linha divisória, onde o português e o espanhol se misturam no chimarrão e no “mate”, a Argentina não é uma abstração nos livros de história, mas sim uma presença constante, visível, quase palpável do outro lado da água.
É como se o mapa-múndi fosse uma mera sugestão, e a realidade fosse ditada pelo fluxo do rio e pela proximidade dos costumes.
Coitado do Cabral!
Navegador intrépido, desbravador de oceanos, mas, aparentemente, míope para as sutilezas da geografia sul-americana.
Para “Seu Gengiva”, a Argentina estava ali, “espichando o beiço”, numa metáfora ribeirinha que evoca a imagem de um curioso observador, quase um convidado à festa do descobrimento que, por alguma razão cósmica ou desatenção cartográfica, ficou de fora.
É claro que a história nos conta outra versão.
Fala de tratados, de demarcações, de um Brasil que nasceu em terras mais ao norte.
Mas a lógica fronteiriça de “Seu Gengiva” transcende os livros e se instala no senso comum de quem vive onde as nações se tocam.
Para ele, a Argentina sempre esteve ali, tão óbvia quanto o reflexo do sol na água do Uruguai.
Talvez, em sua singela observação, resida uma crítica sutil à visão eurocêntrica da história, que por vezes ignora as realidades locais e as presenças vizinhas.
Ou talvez seja apenas a divagação bem-humorada de um homem que passa seus dias na fronteira, onde a geografia e a história se misturam de forma peculiar.
De qualquer forma, a frase de “Seu Gengiva” é um achado.
Uma pérola da sabedoria fronteiriça que nos faz sorrir e pensar sobre como a perspectiva de quem vive no limiar das nações pode ser tão diferente daquela dos livros empoeirados.
E quem sabe, da próxima vez que olharmos para um mapa, lembremos do “beiço” esticado, espiando para o outro lado do rio, cortesia da visão perspicaz do nosso querido “Senhor Gengiva”.
Por Gastão Ponsi.



