A infância de Leonice Friedrich corria solta no interior de São Borja, em São Donato, onde o tempo parecia medir-se pela correnteza do rio Butuí. Foi lá que ela ajudava o pai, pescador de mãos calejadas, a remar uma canoa de madeira improvisada. “Foi meu primeiro contato com a canoagem”, recorda. Entre corridas, futebol com os primos e jogos de pega-pega, a vida rural lhe ensinava desde cedo o gosto pelo movimento.
O destino, no entanto, reservava curvas inesperadas. Aos 27 anos, Leonice sofreu um acidente voltando de uma festa em Maçambará. O carro em que estava saiu da pista e colidiu com um árvore. A fratura na coluna a levou para a cadeira de rodas em 2015. “Naquele momento eu tive que reinventar a minha vida, reinventar todos os meus planos, pensar em como eu iria enfrentar tudo dali para frente”, relembra.
Vieram cirurgias, fisioterapia e a indicação para tratamento no Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília, referência em reabilitação. Foi ali, entre sessões, que reencontrou a canoa — agora como parte da paracanoagem.
No início, experimentou diferentes modalidades. “Experimentei todos os esportes: handebol, basquete, natação. E a canoagem abriu uma porta, me ligou alguma coisa. Me fez gostar de novo do esporte, me trouxe alegria”, conta.
O que começou como reabilitação virou carreira. No ano de 2022, Leonice iniciou sua trajetória e logo nas primeiras competições, já conquistou uma medalha de ouro e outra de bronze. “Foi algo revolucionário para mim, algo que nunca tinha acontecido. E como dizem, o bichinho do esporte me picou”, relembra.
Dali em diante, acumulou conquistas importantes na paracanoagem: medalha de ouro na Copa do Brasil, campeã Sul-Americana, medalhista no Pan-Americano e posições de destaque em campeonatos mundiais disputados em países como Hungria, Croácia, Dinamarca, Polônia e Itália.
Entre pratas, bronzes e ouros, firmou-se como uma das principais paracanoístas do Brasil, ocupando posições de destaque no ranking nacional e internacional.
A jornada, porém, não foi livre de obstáculos. As dificuldades financeiras quase a impediram de permanecer em Brasília. Uma queda em 2019 resultou em fratura no fêmur e complicações que quase custaram sua vida.
Mais recentemente, uma lesão no ombro a impediu de competir em sua melhor forma na prova que valia vaga para as Paralimpíadas de Paris 2024.
Mas Leonice não desiste, não olha para trás. Ela já mira o horizonte e trabalha para chegar ainda mais longe. “Eu acho que estou muito bem e tenho muita chance de conseguir melhores resultados. A ideia agora é trabalhar para a vaga nas Paraolimpíadas de Los Angeles em 2028. Com certeza, nessa eu estarei lá”, projeta.
Leonice se formou em turismo antes de ingressar no esporte profissional, mas é como Integrante da Seleção Brasileira de Paracanoagem que ela teve a oportunidade de conhecer diversos países. Atualmente, ela representa o Brasil em competições internacionais, em que disputa com as melhores atletas do mundo e fica sempre entre elas melhores.
“Hoje, minha vida é a minha carreira (…) A paracanoagem me trouxe uma nova visão de mundo. Eu sempre soube que o esporte muda vidas, mas realmente depois que entrei para paracanoagem vi o quanto ela significa um recomeço e uma vida nova”, conta.
Através da canoagem, Leonice também passou a integrar um grupo de dança, o Street Cadeirante, o segundo maior do mundo na modalidade, onde atua como bailarina e maquiadora, e pelo qual já se apresentou no Teleton, ampliando seu horizonte artístico e pessoal.
No entanto, a reinvenção de Leonice, após o acidente, é algo que nem ela consegue colocar em palavras. Foi a partir daquele momento e principalmente, da aproximação com o esporte, que ela conseguiu ver o mundo com outros olhos. “Um olhar de gratidão, de alegria, de sempre saber que eu posso mais. Existem dificuldades, mas eu sei que posso enfrentá-las. E isso foi algo que o esporte me trouxe”, relata.
De São Borja para o mundo, Leonice Friedrich não apenas remou contra a maré da própria história: transformou dor em força, e a força em medalhas. A paracanoagem, para ela, tornou-se mais que esporte — foi a forma de permanecer em movimento, mesmo quando a vida tentou pará-la.



