Depois da publicação da matéria do Fronteira 360 sobre a falta de atendimento adequado a gestantes em situações emergenciais no Hospital Ivan Goulart, especialmente durante os finais de semana, a reportagem buscou contato direto com a instituição em busca de esclarecimentos.
A tentativa de obter uma resposta oficial, porém, não teve sucesso. Durante visita presencial ao hospital, a reportagem foi orientada a enviar os questionamentos por meio de um número de contato fornecido pela própria instituição. As perguntas foram encaminhadas (veja a lista completa abaixo), mas a resposta recebida foi a seguinte: “O Hospital Ivan Goulart agradece o seu contato, mas não irá pronunciar.”
A negativa ocorre em meio a um aumento na repercussão do caso. Após a divulgação da matéria, novos relatos surgiram nas redes sociais, corroborando as críticas já feitas por outras pacientes.
“Nós mulheres nos sentimos um lixo, como se estar gerando uma vida não tivesse valor algum”, escreveu uma moradora da cidade. “É revoltante você chegar com sangramento às 22, 24, 26 ou 34 semanas e não poder fazer um ultrassom porque o único hospital da cidade não faz esse exame nos fins de semana — pelo menos para quem não pode pagar. É como se estivéssemos condenadas a contar com a sorte de não ter nenhuma intercorrência.”
Outro relato reforça a gravidade da situação: “Perdi minha bebê por falta de atendimento há quatro anos. Esta semana levei minha filha com seis meses de vida, e o atendimento foi péssimo. Nem o médico estava no plantão. Quando chegou, entrou num ‘reinaço’. As enfermeiras também… Se não querem trabalhar, deem lugar para quem quer.”
A crescente indignação levou o advogado Eder Neves Leal a se manifestar publicamente, com uma nota de repúdio publicada neste fim de semana. No texto, ele condena a suposta omissão da instituição e cobra providências das autoridades.
“Como cidadão e advogado atuante na defesa da dignidade humana, repudio veementemente os relatos recorrentes de negligência no atendimento a gestantes em situação de emergência, especialmente durante os fins de semana, no Hospital Ivan Goulart”, declarou.
“Essa conduta, caso confirmada, ultrapassa o campo da falha administrativa e adentra o território da responsabilização penal e civil. Omissão de socorro é crime. A ausência de estrutura não justifica a inércia, tampouco exime o dever de diligência, cuidado e encaminhamento imediato”, escreveu Leal.
“Nenhuma mulher merece ser mandada de volta para casa sem saber se seu filho está vivo. Nenhuma vida pode ser tratada com indiferença. A omissão é crime. E o silêncio institucional é cúmplice.”
Na nota, o advogado também solicita a atuação urgente do Ministério Público, do Cremers, do Conselho Federal de Enfermagem e da Defensoria Pública.
Perguntas enviadas pelo Fronteira 360 ao Hospital Ivan Goulart
1. Plantão obstétrico
– O Hospital conta com plantonistas especializados em obstetrícia durante os finais de semana?
– Em caso negativo, qual é o protocolo adotado para atendimento de gestantes em situação de emergência nesse período?
2. Ultrassonografia
– O serviço de ultrassonografia está disponível 24 horas, inclusive aos fins de semana e feriados?
– Há profissionais habilitados para realizar e interpretar exames de imagem em plantão aos fins de semana?
3. Estrutura e protocolos
– Existem protocolos específicos para atendimento de gestantes com sangramento ou dor abdominal fora do horário comercial?
– O hospital dispõe de equipamentos adequados para atendimento emergencial obstétrico, inclusive durante os plantões noturnos e de fim de semana?
4. Casos relatados
– O hospital tomou conhecimento dos relatos de pacientes que afirmam ter perdido bebês por falta de atendimento adequado?
– Algum procedimento interno foi aberto para apurar esses casos? Há registro formal dessas ocorrências?
5. Atendimento humanizado
– Como o hospital garante que os atendimentos, especialmente os de gestantes em situação de fragilidade, sejam conduzidos com empatia, respeito e escuta qualificada?
– Existem treinamentos periódicos para a equipe médica e de enfermagem sobre atendimento humanizado em situações de aborto espontâneo ou risco gestacional?
6. Resposta institucional
– Há alguma medida sendo planejada ou já em andamento para melhorar o atendimento às gestantes fora do horário comercial?
7. Sistema de ouvidoria
– O hospital dispõe de um canal de ouvidoria acessível às pacientes que desejam registrar queixas, denúncias ou sugestões?
– Como são tratadas as reclamações recebidas por meio desse canal?
O Fronteira 360 segue à disposição para publicar qualquer posicionamento do Hospital Ivan Goulart ou das autoridades citadas, caso optem por se manifestar diante da repercussão crescente do caso.



