“Elas são o nosso futuro, mas estão dando pouco valor às nossas crianças”: pais do interior de São Borja relatam angústia com a educação dos filhos

Natiele Nunes fala com preocupação, mas também com firmeza. Mãe de uma criança com TDAH e dislexia, ela vê na situação de seu filho o reflexo do que se tornou a educação no interior de São Borja. “Ele precisa de atenção, mas como vai conseguir, se a professora precisa dar aula pra duas turmas ao mesmo tempo?”, questiona. “Isso não tem cabimento. Se fosse com um filho deles, duvido que iriam deixar isso acontecer”, desabafa.

Desde o início do ano letivo, escolas como Bonsucesso, São Judas Tadeu, Olinto Dorneles e Oswaldina Batista da Silva, localizadas em comunidades do interior de São Borja, passaram a adotar o sistema de turmas multisseriadas e ensino em turno único. A decisão da Prefeitura veio após especulações sobre o fechamento da Escola Bonsucesso, o que foi descartado após reuniões com as comunidades locais.

Mas, para os pais, a mudança trouxe mais problemas do que soluções.

Liliane, moradora da comunidade próxima a Cerealista Albaruska, e mãe de uma criança com necessidades especiais, relata uma realidade preocupante dentro da sala de aula. “Fica difícil para ele aprender, pois a professora tem que dar aula para dois turnos ao mesmo tempo. Meu menino tá no quarto ano e mal sabe ler. O outro, do primeiro ano, já sabe mais que ele”, relata.

As histórias se repetem. O que muda são apenas os nomes.

Além das salas multisseriadas, Valdenir Machado, que tem três filhos matriculados em uma escola do interior, também reclama das estradas e fala sobre os dias em que o filho saiu de casa às onze da manhã e só voltou às oito e meia da noite. “A escola parece esquecida pelos governantes. Sem contar que as estradas estão em péssimas condições — praticamente não existe estrada. Quando dá um problema, como um pneu furado, como aconteceu recentemente, eles só chegam em casa à noite”, afirma.

Para ele, não há justificativa para cortar gastos justamente na educação: “Tem tanta coisa pra cortar gasto, e querem cortar justo na educação? Não faz sentido.”

Pais e responsáveis também apontam que, na prática, os ônibus continuam realizando duas viagens no turno da tarde — uma para buscar os alunos e outra para levá-los para casa — o que mantém os gastos praticamente inalterados.

“Eles cortaram para meio turno só para reduzir os custos, mas os ônibus acabam fazendo duas viagens no período da tarde, para buscar e para levar as crianças, então não adianta. O gasto com diesel e manutenção continua o mesmo, ou até maior”, explicou Natiele.

Segundo relatos, a medida não atende às necessidades dos estudantes, pois nem todos podem ser transportados em uma única viagem.

Isso obriga os motoristas a retornarem à escola para buscar os alunos que ficaram para trás, duplicando o percurso e, consequentemente, os custos. Dessa forma, a tentativa de reduzir os gastos com o transporte escolar não surtiu o efeito esperado, segundo os pais, o que tem gerado insatisfação entre a comunidade escolar.

Na Escola da Timbaúva, Margarete Ferreira enfrenta uma situação ainda mais frustrante. O filho, aluno do terceiro ano, precisa permanecer na escola o dia todo, mesmo sem ter aula no turno da tarde. “Falaram que teria preparação pro Enem, acesso digital… mas nada aconteceu. Pela idade que têm, eles poderiam estar em casa ajudando ou até trabalhando”, diz. Ela tentou acionar o Ministério Público e procurou vereadores, mas relata que nada avançou.

Natiele Nunes também relata que já tentou marcar reuniões com a Secretária de Edução do município, para expor os problemas e buscar soluções, mas já se passaram meses sem nenhuma resposta concreta.

O ponto em comum entre esses relatos não é apenas a dor — é a impotência.

Todos os pais demonstram uma mesma preocupação: o futuro dos seus filhos, que dependem diretamente de uma educação pública eficiente e respeitosa.

Eles não culpam os professores, que muitas vezes se desdobram para dar conta do trabalho. “Os professores e os motoristas não têm culpa. Fazem o que está ao alcance deles”, afirma Natiele. O mesmo é dito por Valdenir: “Por parte dos professores tem um baita empenho, eles fazem o que podem e muitas vezes também dependem do transporte”.

A questão, portanto, se torna: como educar em meio à precariedade? Estudos sobre o modelo de turmas multisseriadas alertam que, embora seja uma alternativa comum em regiões rurais, exige planejamento específico, materiais adaptados e apoio pedagógico constante — elementos que, segundo os pais, estão em falta.

Um relatório do CPERS, por exemplo, indica que esse modelo “compromete a qualidade do ensino e sobrecarrega docentes”. Dessa forma, com a justificativa de corte de gastos, gestores comprometem o ensino público, contribuem com a exaustão de professores e com o baixo nível de aprendizagem dos alunos.

Enquanto o tempo passa, as famílias seguem apreensivas com o futuro de seus filhos. Há situações, segundo relatos dos pais, em que crianças passam mais tempo no transporte do que em sala de aula. Além disso, enfrentam estradas intransitáveis, recebem menos atenção e acumulam defasagens que poderão marcar suas vidas para sempre.

“Como mãe, sinto-me de mãos atadas, pois toda mãe deseja o melhor para seu filho. Meu filho se sente mal ao perceber que seu irmão, de apenas 8 anos, já lê corretamente, enquanto ele ainda enfrenta dificuldades. Gostaria muito que as turmas voltassem a ser separadas e que houvesse reforço escolar adequado”, afirma Liliane.

Natiele Nunes faz os mesmos votos para o futuro e se divide entre a preocupação e a indignação. “Eles são o nosso futuro, e a Prefeitura está dando muito pouco valor às nossas crianças do interior. A educação deveria ser prioridade, porque do jeito que está não tem condições de aprender. Eles não vão aprender nada assim”, lamenta.

“Deveriam ter muito mais atenção com os colégios, com os alunos e com as estradas, que são horríveis”, reforça Valdenir.

Margarete também aponta o medo como um dos fatores que impede outros pais de denunciarem. “Tem gente que não quer se manifestar, pois tem medo de se envolver com os políticos da cidade”, relata.

As famílias não reivindicam privilégios, mas sim condições básicas que garantam o direito à educação com qualidade, equidade e respeito. A ausência de estrutura adequada, a sobrecarga de profissionais e a dificuldade no acesso às escolas não apenas dificultam o aprendizado, como também geram sentimentos de impotência e frustração entre os pais.

Para eles, cada ano letivo marcado por defasagens e improvisos representa uma perda significativa no desenvolvimento de seus filhos — e um retrocesso que não se limita ao presente, mas projeta consequências profundas para o futuro.

A reportagem do Fronteira 360 procurou a Secretaria Municipal de Educação de São Borja para tratar das queixas levantadas pelas famílias e aguarda um posicionamento. O espaço segue aberto para esclarecimentos, inclusive por meio de nota oficial.

Maicon Schlosser

Jornalista

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