A Polícia Federal identificou indícios de um dos maiores casos recentes de superfaturamento em contratos educacionais no interior de São Paulo.
Segundo a corporação, a empresa Life Tecnologia Educacional, alvo de operação deflagrada nos últimos dias, teria comprado livros por valores entre R$ 1 e R$ 5 e os revendido a prefeituras por preços que chegavam a R$ 80 a unidade, uma diferença que, em alguns casos, alcançaria 35 vezes o valor original.
De acordo com a investigação, um dos títulos exemplifica o suposto esquema: adquirido por R$ 2,56, foi faturado às prefeituras por R$ 41,50.
“O sobrepreço praticado pela empresa é evidente”, aponta o relatório da PF, que chegou aos valores por meio de uma análise por amostragem.
Documentos também indicam que a venda às prefeituras ocorria antes mesmo de a empresa efetivar a compra dos livros.
A apuração ganhou novos contornos porque, segundo a PF, Carla Ariane Trindade, ex-nora do presidente Lula, teria atuado para facilitar a liberação de recursos em municípios e no Ministério da Educação.
As passagens aéreas utilizadas por ela em viagens a Brasília teriam sido pagas pelo dono da Life, André Mariano.
Carla foi casada por 20 anos com Marcos Cláudio Lula da Silva, filho da ex-primeira-dama Marisa Letícia, morto em 2017 e adotado por Lula.
Registros reunidos pela Receita Federal reforçam o indício de superfaturamento.
Uma planilha analisada pela PF aponta que a empresa recebeu R$ 86 milhões para fornecimento de livros, enquanto teria gasto R$ 32 milhões com a aquisição do material.
Na avaliação dos investigadores, o “lucro frio”, desconsiderando despesas com logística, serviços e pessoal, ultrapassaria R$ 50 milhões.
Além da venda de livros, a Life também comercializou kits de robótica. Somados, os contratos com quatro prefeituras renderam à empresa R$ 111 milhões.
Para garantir os acordos, segundo a PF, Mariano recorria a figuras consideradas “influentes na política local e nacional”, como Carla Trindade, descrita como defensora dos interesses da empresa.
Em troca, o empresário teria pago propina a servidores públicos. A palavra-código usada para as vantagens indevidas seria “café”, termo registrado ao menos 104 vezes por Mariano em conversas entre 2021 e 2024, conforme a investigação.
A operação da PF prendeu o empresário e secretários municipais envolvidos. Em Brasília, os agentes cumpriram mandado na casa de Carla Trindade na manhã de quarta-feira.
O ex-marido, Marcos Cláudio, estava no local e recebeu os policiais. Também estavam na residência os pais e o filho dela. A PF apreendeu passaporte, celular, computador e um caderno de anotações.



