O clima de intolerância e violência política que cresce na Argentina sob o governo de Javier Milei voltou a se manifestar de forma preocupante. O fotojornalista Antonio Becerra, do jornal Tiempo Argentino, sofreu uma tentativa de ataque a faça durante a cobertura de uma atividade presidencial no município de Tres de Febrero, na Grande Buenos Aires.
A agressora, identificada como Annabel Ilarraz, uma bioquímica de 50 anos, portava um faca tática de combate modelo Filoso MF62, com lâmina de 12,5 centímetros, fio liso e cabo de ABS — uma arma de uso militar, facilmente adquirida em lojas especializadas ou pela internet.
Segundo testemunhas, a mulher estava visivelmente alterada, lançou gás de pimenta contra fotógrafos e pessoas próximas e, em seguida, tentou apunhalar o repórter.
Becerra conseguiu correr até o interior de um supermercado Carrefour, onde buscou refúgio enquanto a agressora o perseguia. Ela foi rapidamente contida por agentes de segurança e detida pela polícia.
Durante a prisão, conforme relatos, ainda tentou resistir, chegando a chutar um dos oficiais envolvidos no procedimento.
Pouco depois da detenção, Fabiana Ilarraz, irmã da agressora, se apresentou à delegacia e conversou com o canal argentino A24. “Não sei o que aconteceu e na delegacia não me deixam falar com ela para ver se está bem”, afirmou.
Questionada sobre eventuais problemas psicológicos da irmã, negou: “Minha irmã não tem nenhum problema psíquico e é bioquímica”.
Fabiana explicou ainda que mora a poucas quadras do local do ato e não sabia que Annabel havia ido ao evento. “O único que sei é que corri até o supermercado e o gerente me disse que alguém vinha correndo atrás dela, mas que a polícia a levou”, acrescentou.
A ausência de histórico psiquiátrico e a descrição do episódio reforçam o caráter inquietante do ataque: uma mulher sem antecedentes, aparentemente estável e com formação universitária, agindo de forma violenta em um ato político.
O caso evidencia como o discurso de ódio e a agressividade contra a imprensa, incentivados desde o poder, se infiltram na vida cotidiana e geram comportamentos extremos.
O ataque a Antonio Becerra ocorre meses depois de o mesmo fotógrafo ter sido intimidado por Santiago Caputo, um assessor direto de Javier Milei, e um dos homens mais influentes do governo, responsável por áreas estratégicas como a Secretaria de Inteligência do Estado (SIDE) e a Agência de Recaudación (ARCA).
O assessor, que integra o núcleo de confiança do presidente conhecido como o “triângulo de ferro”, foi filmado tentando impedir o trabalho da imprensa durante outro evento público.
Na ocasião, Becerra tentava fotografá-lo quando o assessor reagiu com agressividade, colocou a mão diante da lente e afirmou: “Não me tire fotos, você é um sem noção”.
Em seguida, arrancou a credencial do jornalista, leu seus dados e tirou uma foto do documento com o próprio celular, em um ato amplamente interpretado como tentativa de intimidação.
O comportamento gerou repúdio de sindicatos e organizações de direitos humanos, que denunciaram o caso como “abuso de poder e ataque à liberdade de imprensa”.
Apesar das críticas, Milei defendeu o assessor, afirmando em suas redes sociais que “a gente não odeia o suficiente os jornalistas”.
A frase, repetida com frequência por ele e por seus apoiadores, se tornou um símbolo da retórica agressiva do governo contra os meios de comunicação.
O episódio em Tres de Febrero, portanto, não foi um caso isolado, mas parte de uma escalada de hostilidade e perseguição simbólica à imprensa argentina.
Entidades como a Federação Argentina de Trabalhadores de Imprensa (FATPREN) e a Associação de Repórteres Gráficos (ARGRA) condenaram a agressão, destacando que “os discursos violentos do governo criam o terreno fértil para ataques físicos contra jornalistas”.
Especialistas e defensores de direitos humanos têm alertado para o risco da radicalização libertária, alimentada por uma narrativa que transforma o opositor político ou o jornalista crítico em inimigo público.
O chamado “desvario libertário”, como definem alguns analistas, se manifesta nas ruas, nas redes e nos próprios atos oficiais — onde o confronto verbal e o desprezo pela imprensa são cada vez mais naturalizados.
A tentativa de apunhalar um repórter em pleno ato presidencial é vista, assim, como consequência direta desse clima de ódio. Não se trata de um gesto isolado de uma pessoa descontrolada, mas do reflexo de uma atmosfera social em que a agressão é validada e o inimigo é desumanizado.
Enquanto Antonio Becerra tenta se recuperar do susto e segue sob apoio de colegas e entidades de imprensa, cresce a cobrança para que o governo argentino condene abertamente a violência e garanta a segurança de profissionais da comunicação.
Por enquanto, contudo, o silêncio oficial e as mensagens ambíguas de Javier Milei reforçam a percepção de que, na Argentina libertária, o jornalismo crítico passou a ser tratado como um alvo — e não como um pilar da democracia.



