A morte do produtor rural Marcos Nornberg, de 48 anos, durante uma operação da Brigada Militar em Pelotas, foi classificada pelo comandante-geral da corporação, coronel Cláudio Feoli, como resultado de um “grande mal-entendido com desfecho trágico”. O agricultor foi baleado durante uma ação que envolveu 18 policiais, na madrugada desta quinta-feira (15), na zona rural do município.
Em entrevista à Rádio Gaúcha, Feoli afirmou que houve uma colisão de percepções no momento da abordagem. Segundo ele, Marcos teria acreditado que a propriedade estava sendo alvo de um assalto, enquanto os policiais interpretaram a reação como agressão de criminosos que fariam a guarda do local.
“Preliminarmente, nos parece que tivemos um grande mal-entendido”, afirmou o comandante.
A operação foi desencadeada após a Brigada Militar receber informações da Polícia Militar do Paraná, repassadas por dois homens presos naquele estado. Segundo Feoli, o informe continha “minúcia de detalhes” e até georreferenciamento, apontando a propriedade de Nornberg como suposto depósito de armas e veículos roubados.
Diante da precisão das informações, o comandante disse que a corporação não poderia permanecer inerte.
Apesar disso, a BM admite que nenhuma das informações se confirmou no local. “Não havia veículos roubados, nem armamento, a não ser o utilizado pelo agricultor contra os policiais”, declarou Feoli.
O comandante confirmou a abertura de um Inquérito Policial Militar (IPM) pela Corregedoria-Geral da BM. Os 18 policiais envolvidos foram afastados, e todas as armas usadas na ação foram apreendidas.
Paralelamente, a Polícia Civil instaurou inquérito próprio. O delegado César Nogueira, da Delegacia de Homicídios, afirmou que a corporação não tinha conhecimento prévio da operação e classificou como “incomum” o número de viaturas e policiais empregados.
Familiares da vítima, incluindo a viúva Raquel Nornberg, contestam a versão da Brigada Militar. Ela afirmou que os policiais agiram com truculência e que, mesmo após se identificarem, não foram acreditados. “Achei o tempo inteiro que eram bandidos”, relatou. Segundo Raquel, o linguajar e a forma de abordagem reforçaram essa percepção. “Não consigo entender que a polícia trate pessoas do bem como criminosas”, disse.
O governador Eduardo Leite manifestou pesar pela morte e defendeu apuração rigorosa. “O Rio Grande do Sul tem uma polícia bem preparada, mas não é imune a erros. O importante é que haja uma corregedoria forte para investigar”, afirmou.
Em nota, a Brigada Militar reiterou que a ação ocorreu após a prisão, no Paraná, de dois suspeitos de um roubo a residência em Pelotas, no qual um caseiro teria sido mantido refém por 36 horas.
A corporação sustenta que, ao chegar ao endereço, os policiais teriam sido recebidos a tiros por um homem armado, o que resultou no confronto fatal. No local, segundo a BM, foi apreendida uma carabina semiautomática, além de ter R$ 27 mil em dinheiro e uma pequena quantia em dólares.
O caso segue sob investigação da Polícia Civil e da Corregedoria da Brigada Militar.



