A possibilidade de uma nova paralisação nacional dos caminhoneiros voltou a ganhar visibilidade nas redes sociais nesta semana, mas a mobilização anunciada para quinta-feira (4) está longe de ser consenso dentro da categoria. A disputa de narrativas expôs uma fragmentação que contrasta com a união registrada em 2018.
O movimento ganhou fôlego após o desembargador aposentado Sebastião Coelho e o representante da União Brasileira dos Caminhoneiros, Chicão Caminhoneiro, anunciarem que pretendem protocolar uma ação para “legalizar” uma greve geral.
A iniciativa, entretanto, não encontrou apoio das principais lideranças setoriais.
Wallace Landim, o Chorão, presidente da Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores (Abrava) criticou o uso político dos caminhoneiros e afirmou que a entidade não apoiará uma paralisação motivada pela prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro.
“Quem estiver insatisfeito que vá para a rua fazer seu movimento. Mas usar o transporte rodoviário de cargas, usar o caminhoneiro que sofre tanto para levantar um movimento para defender político A ou político B eu não concordo e não vou compactuar”, afirmou.
O mesmo posicionamento foi adotado por Carlos Alberto Litti Dahmer, dirigente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes e Logística (CNTTL), que também condenou pedidos de doações para financiar atos e avaliou não haver ambiente real para uma greve com essa pauta.
“Não dá para querer anistiar quem tentou transformar a democracia de um país através de um golpe”, declarou, acrescentando que também discorda do pedido de doações para sustentar o movimento.
A posição contrária também encontrou eco no Rio Grande do Sul, após a manifestação do empresário Leonardo Buzin, diretor da Buzin Transportes, uma das maiores empresas do setor no Estado, com mais de 400 caminhões e três gerações de atuação no transporte rodoviário.
Em vídeo publicado nas redes sociais, Buzin rejeitou de forma contundente a convocação de uma paralisação e criticou tentativas de atribuir aos caminhoneiros responsabilidades de caráter político-partidário. “Greve é o cacete. Não tem greve merda nenhuma. Querem fazer greve? Parem de jogar no colo dos caminhoneiros. Não tem nenhum caminhoneiro apoiando, salvo raras exceções. Caminhoneiro não é massa de manobra”, criticou.
Apesar da resistência ampla, alguns motoristas seguem defendendo uma mobilização por razões econômicas. O caminhoneiro e influenciador Daniel Souza, que teve papel destacado na greve de 2018, argumenta que a categoria enfrenta um “estado de abandono”, marcado por fretes baixos, insegurança nas estradas, dificuldades estruturais para cumprir a legislação e custos elevados com combustíveis.
Para ele, essas condições justificariam protestos, mas não uma paralisação atrelada a disputas ideológicas.
Nas redes sociais, a proposta de greve vinculada à anistia de Bolsonaro encontrou forte rejeição. Diversos caminhoneiros publicaram vídeos negando adesão e criticando a tentativa de associar o setor a interesses partidários. Alguns chegaram a questionar a atuação de parlamentares que têm convocado os atos, apontando falta de representatividade.
Com posicionamentos tão divergentes, permanece a principal dúvida: haverá greve?
Se ocorrer, deverá ser limitada a grupos específicos. Caso contrário, a discussão já evidencia um ponto incontornável: ao contrário de 2018, a categoria hoje se apresenta fragmentada, sem uma pauta única e com lideranças que caminham em sentidos opostos.



