Era um fim de tarde de sexta-feira, quando cheguei à casa de Guiomar Rodrigues dos Santos, filha de Dona Catarina Rodrigues, que dias antes havia celebrado um aniversário histórico. As filhas haviam me alertado que ela já não fala muito, tampouco ouve como antes. No entanto, sua presença impõe silêncio e respeito, como se o próprio tempo repousasse ao seu lado. Pelo menos foi o que senti ao adentrar o recinto e pedir a bênção de Catarina.
Aos 110 anos, ela não precisa mais narrar sua história: são as filhas Inocência e Guiomar que a costuram em palavras, como quem borda um tecido delicado, ponto a ponto, para que a memória não se perca.
Alguns dias antes da minha visita, a família havia se reunido para celebrar uma rara marca: mais de um século de vida. Ao todo, são 11 filhos, 24 netos, 34 bisnetos e 5 tataranetos, frutos de uma trajetória marcada por trabalho, resiliência e afeto.
Nascida em 1915, no Rincão das Pedras, Catarina foi criada por uma madrinha no e desde cedo aprendeu o trabalho da lavoura. “Ela foi uma guerreira de Deus”, lembra Guiomar. “Trabalhou muito, carpindo, plantando, construindo cerca e criando os filhos. Nós ajudávamos também, desde cedo.”
O campo moldou sua rotina: foram muitos anos acordando cedo, de enxada na mão, com os filhos pequenos se dividindo entre o cuidado com os irmãos e o trabalho ao lado da mãe. A escola ficou em segundo plano. “Nós estudamos pouco, até a terceira série, porque precisávamos ajudar”, recorda Inocência. “Mas ela nunca nos deixou faltar nada. Nos ensinou a ser honestos e a valorizar o trabalho. E hoje somos nós que cuidamos dela, como ela cuidou de nós”, complementa Guiomar.
Ao longo da vida, Catarina também cuidou de uma filha doente, mesmo quando já tinha quase 100 anos de idade, gesto que as filhas veem como reflexo de sua força e generosidade. O marido, com quem construiu parceria sólida, faleceu há décadas. Desde então, ela seguiu firme, sustentada pela fé e pela família. Seus raros passatempos eram a roda de chimarrão e as idas à igreja. Televisão e novelas, que se desenvolveram ao longo de sua vida, nunca chamaram sua atenção — era mais do rádio.
Quando pergunto sobre o segredo de tanta longevidade, Guiomar pensa um pouco e responde: “Acho que a alimentação. Hoje tudo é com veneno. Antes era só da lavoura, natural. Acho que isso fez a diferença.” Inocência acrescenta: “E também porque ela nunca fumou, nunca bebeu. Sempre se alimentou bem e tinha disposição para tudo.”
Hoje, a conversa com Catarina já não se desenrola como antes. O silêncio tomou espaço, e as lembranças vivem nas vozes das filhas. Elas recordam histórias contadas pela mãe sobre a Segunda Guerra Mundial, de quando os homens da região se escondiam para não serem convocados ao Exército, com medo de serem levados ao combate, entre outros causos sobre tempos difíceis e das transformações que ela presenciou ao longo da vida.
Na sala iluminada pela luz suave da tarde, a quietude e a calmaria de Dona Catarina contrastavam com o olhar profundo, que acompanhou as grandes mudanças do mundo ao longo de 110 anos.
Hoje, com a idade avançada, não há pressa, não há reclamação. Há apenas cuidado, como se cada gesto fosse uma oração silenciosa. “Ela é calma, não dá trabalho. É como cuidar de uma criança”, resume Guiomar.
Catarina Rodrigues, aos 110 anos, ainda ensina — mesmo em silêncio. Seu legado não se mede em bens, mas no gesto simples, na fé cultivada, no trabalho honesto e no amor que floresceu em cinco gerações. As filhas, emocionadas, resumem em poucas palavras o que ela a vida inteira demonstrou: “Sempre foi muito boa para nós e temos muito orgulho de nossa mãe”.
E assim, entre a memória e o afeto de filhos, netos, bisnetos e tataranetos, Dona Catarina permanece como o exemplo vivo de uma história que não se apaga.



